Ttulo: Mulher Misteriosa.
Autora: Barbara Cartland.
Dados da Edio: Livros Abril, So Paulo, 1985.
Ttulo Original: The Lioness and the Lily.
Gnero: romance.
Digitalizao: Dores cunha.
Correco: Edith Suli.
Estado da Obra: Corrigida.
Numerao de Pgina: Rodap.

Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destinada unicamente 
leitura de pessoas portadoras de deficincia visual. Por fora da lei de
direitos de autor, este ficheiro no pode ser distribudo para outros
fins, no todo ou em parte, ainda que gratuitamente.


Mulher misteriosa

No silncio do quarto imenso do castelo de Windsor, o conde de Rockbrook
preparava-se para apagar as velas quando a porta se abriu deixando entrar
uma mulher, vestindo apenas um leve nglig. O conde j sabia das visitas
noturnas que a jovem lady fazia aos hspedes do castelo, entregando seu
corpo para tentar enredar nobres ricos e poderosos como ele nas malhas de
um casamento forado. Mas o sorriso sensual nos lbios dela e o brilho
malicioso do seu olhar fizeram Rockbrook esquecer todas as recomendaes,
todo o cdigo de honra. Ele abriu os braos e acolheu a bela visitante
para esquentar-lhe o leito... e foi este fato que deu incio a todo o seu
tormento!

livros Abril
Ttulo original: "The Lioness and the Lily"
Copyright: (c) Cartland Promotions 1981
Traduo: Rachel Shwartz
Copyright para a lngua portuguesa: 1985 Abril S. A. Cultural - So Paulo
Esta obra foi composta na Linoart Ltda. e impressa na Editora Parma Ltda.

Leitura - a maneira mais econmica de cultura, lazer e diverso.
LIVROS ABRIL
Romances com Corao
Caixa Postal 2372 - So Paulo

CAPTULO I
1841
Completamente absorto nos prprios pensamentos, o conde de Rockbrook
cruzou os pesados portes que levavam  enorme manso georgiana,
pertencente a sua famlia desde os tempos do rei Charles II.
Cavalgou entre as rvores seculares que ladeavam o caminho, sem tomar
conhecimento da beleza da vegetao ao seu redor, e parou, quase que por
instinto, ao lado dos degraus que conduziam  porta de entrada, com seus
majestosos pilares.
A criadagem, em cujos uniformes se destacavam os botes com o braso da
famlia, logo percebeu que o novo senhor de Rockbrook no estava em seu
melhor humor.
Todos ainda sentiam-se inseguros e inquietos diante da reviravolta dos
acontecimentos e temiam pela prpria sorte.
Como era natural, haviam sempre imaginado que com a morte do antigo conde
seu nico filho seria o herdeiro do ttulo e de suas propriedades;
hiptese que ainda assim lhes parecia muito longnqua, uma vez que o conde
gozava de excelente sade.
No contavam porm que ambos, o conde e seu filho, o visconde, morressem
tragicamente durante uma viagem, num acidente de trem, meio de transporte
considerado por muitos altamente perigoso. Dessa maneira, o Condado
acabara, inesperadamente, passando para as mos de um sobrinho que jamais
sonhara herd-lo.
O novo conde estava com trinta e dois anos e at ento vivera
a, rdua vida de um soldado de modestos recursos. Sem dvida, a
grandeza de sua herana o surpreendera e encantara.
Precisava agora tratar de se habituar no s ao ttulo e a suas 
propriedades, como tambm a sua nova posio na corte.
A bem da verdade, o protocolo a ser observado no palcio de Buckingham e 
no castelo de Windsor no era novidade alguma para ele.
No ltimo ano servira como ajudante-de-ordens ao general de seu regimento 
que, por ser um dos prediletos da rainha Vitria, frequentemente estava 
nos palcios reais, e insistia em lev-lo na sua companhia, sob a 
alegao:
- Voc est comigo h bastante tempo e me conhece o suficiente, Brook, 
para no me fazer um monte de perguntas estpidas. Por isso, sempre que 
eu tiver de ir ao castelo de Windsor, voc vai comigo!
Para um jovem oficial, essas palavras no deixavam de ser lisonjeiras. 
Tinha, porm, plena conscincia de que seus companheiros sentiam-se 
enciumados e queixavam-se de favoritismo, apesar de o general ser 
intransigente e nada do que dissessem o faria alterar uma deciso.
Agora enxergava claramente que o que lhe parecera um doce interldio em 
sua vida no exrcito no passara de uma grande iluso.
Atravessou o grande hall de mrmore, com suas esttuas de deuses e deusas 
gregos em pequenos nichos, e entrou na magnfica biblioteca, local 
preferido pelo tio sempre que estava sozinho, ou quando no havia damas 
nas reunies.
Futuramente, escolheria uma sala menor, mais confortvel e acolhedora 
para descansar.
Por enquanto o melhor era manter tudo exatamente como sempre havia sido. 
Quando estivesse preparado para assumir sua autoridade, modificaria 
algumas coisas a seu gosto.
O estranho  que, em vez de sentir-se vibrando por se saber
dono de tantas preciosidades, dos quadros que ornamentavam os corredores,
dos livros que cobriam de alto a baixo as paredes da biblioteca, sentia-
se sombrio e angustiado.
Desde criana, quando frequentemente se hospedava ali com os pais, 
considerava Rock o lugar mais bonito do mundo.
Quando servira na ndia, chegara a sonhar com a gua fresca do lago em 
que sempre se banhara e com a sombra das rvores onde, invariavelmente, 
um pequeno veado estava deitado, fugindo  sua aproximao.
Conservava ntidas na memria as lembranas das brincadeiras infantis, do 
esconde-esconde pelos corredores e recantos repletos de incontveis 
relquias do passado. Lembrava-se ainda da aflio que tivera num dia em 
que as travessuras estavam passando dos limites. O mordomo o havia 
colocado de castigo no poro. O piso frio e o fechar da porta pesada 
haviam lhe causado a impresso de estar num tmulo. Ainda ficava 
arrepiado ao lembrar.
E eis que, inesperadamente, acontecera o que jamais sonhara. Era o senhor 
de Rock.
Ao receber a notcia da trgica morte do tio e do primo tivera a sensao 
de ter levado um golpe na cabea.
Somente depois dos funerais, quando parentes que nunca lhe haviam dado 
ateno curvaram-se diante dele e foi cumprimentado pelas mais 
respeitveis autoridades do Condado,  que percebeu a diferena entre 
fazer parte de uma famlia importante e ser o chefe dela.
Depois de passar toda a noite anterior acordado, no o abandonava a 
sensao de estar  beira de um abismo, prestes a ser empurrado para ele. 
E tudo por causa do que considerara   uma inofensiva aventura 
masculina...
Logo depois do Natal, o general fora convidado para se hospedar no 
castelo de Windsor e, como sempre, ordenara-lhe:
- Voc ir comigo!
Apesar de o castelo ser muito frio no inverno e a maioria dos hspedes 
ilustres reclamarem da falta de conforto, ele, o modesto capito Lytton 
Brook, aceitara a ordem com prazer.
- No vamos ficar muito - bradara o general -, s quero ver se o prncipe 
consorte fez alguns melhoramentos no castelo.
- H muito a fazer, sir - ousara replicar, e o general concordara com um 
gesto impaciente.
Os visitantes do castelo de Windsor e das outras residncias reais logo 
puderam notar que no somente os quartos eram tremendamente frios, como 
tambm todo o servio da residncia era extremamente mal organizado.
Frequentemente no havia sequer criados para indicar aos hspedes onde 
ficavam seus aposentos. No raro era quase impossvel para um recm-
chegado encontrar o caminho para o quarto, ao trmino de um jantar.
O conde ouvira dizer que numa ocasio o Ministro do Exterior da Frana 
passara quase uma hora vagando pelos corredores do castelo, tentando em 
vo identificar seu quarto.
Finalmente, quando julgou ter encontrado a porta certa, abriu-a e
deparou-se com a rainha, cuja camareira estava escovando-lhe os cabelos
antes de deitar.
Um outro convidado, amigo pessoal do conde, contara-lhe que, desesperado, 
desistira de procurar seu quarto:
- Fui dormir num dos sofs do salo. Quando a criada me encontrou na 
manh seguinte, achou que eu estava bbado ed foi buscar um guarda! "m
O conde achara muita graa e contara o caso ao general, que por sua vez,
contara-lhe a histria do lorde Palmerston, conhecido, por razes
bvias,
como "cupido".
Procurava o referido lorde o quarto de uma dama muitssimo atraente e
acabara entrando no aposento errado, cuja ocupante ao v-lo pusera-se a
gritar por socorro, tomando-o por um raptor!
8
O comentrio agora era de que, com a ajuda do baro de Stockmar, o
prncipe consorte tomara para si a rdua tarefa de colocar em ordem e
decncia a moradia da rainha.
Lamentavelmente, no que dizia respeito ao conde, a inteno era um pouco
tardia.
Em sua ltima visita, ele fora deitar-se depois de usufruir no s de um
jantar memorvel, regado a excelentes vinhos, como tambm de um agradvel
baile, muito mais animado do que as conversaes arrastadas que
tradicionalmente seguiam-se aos jantares.
Havia acabado de ler um jornal e estava quase apagando as velas ao lado
de sua cama quando a porta se abrira e, para seu espanto, entrara lady
Louise Welwyn, vestindo um nglig branco.
Por uma frao de segundo, o conde tivera a ntida impresso de estar
vendo um fantasma.
Em seguida, porm, ela aproximara-se da cama, com um sorriso sensual e um
brilho malicioso no olhar, e ele compreendera ento que era verdade tudo
o que ouvira a respeito dela.
Segundo seus colegas do exrcito, ela era da mesma categoria de lady
Augusta Somerset, a filha mais velha do duque de Beaufort, que havia sido
avisado do mau comportamento da filha, "sempre pronta a fazer tudo o que
lhe passasse pela cabea, sem medir as consequncias".
Os rumores de que o prncipe George de Cambridge, homem dado a flertes,
embora meio tmido, a havia engravidado foram um verdadeiro escndalo.
Mais tarde ficou provado que a notcia era falsa, mas enquanto as lnguas
se ocupavam dos falatrios, reforando o dito popular de que "no h
fumaa sem fogo", lady Augusta saiu do cenrio e lady Louise tomou o seu
lugar.
Louise era extremamente bonita e o conde no seria humano se no
aceitasse aquele verdadeiro "presente dos deuses", ou melhor, tudo o que
ela estava disposta a lhe oferecer.
Ainda mais numa noite fria como aquela e numa cama desprovida de
cobertores, como recusar o calor de um corpo jovem e sensual?
Na verdade, o conde surpreendera-se com o calor que lady Louise trouxera
ao seu leito.
Ele havia tido muitos amores em sua vida, nenhum srio ou duradouro.
No que sua natureza fosse excepcionalmente volvel, mas suas obrigaes
para com o exrcito dificultavam um relacionamento mais prolongado.
Certamente no fora ao castelo de Windsor com a ideia de ter um caso
amoroso.
Danara duas vezes com lady Louise durante o baile e, apesar de ach-la
atraente, considerara a conversa de uma outra dama de companhia da rainha
muito mais interessante.
Obviamente, ela no sentira o mesmo em relao a ele.
- Queria lhe dizer para vir ao meu encontro - ela disse francamente -,
mas receei que me ouvissem. Por isso achei mais fcil descobrir o caminho
at aqui.
Recordando todos os casos que haviam lhe contado, o conde a julgara
aventureira e corajosa demais, mesmo para quem est em busca de um
parceiro amoroso.
Ele permanecera no castelo por trs noites, tendo sido visitado por lady
Louise durante todas elas. Mesmo que, no dia seguinte, estivesse se
sentindo meio exausto, consolava-o o pensamento de que valera a pena.
Na ltima noite, porm, despedira-se dela, sem a menor dor no corao.
- Obrigado - dissera-lhe com um sorriso provocante por ter feito desta a
visita mais encantadora que j fiz  residncia real.
Ela no respondera, mas puxara a cabea dele para perto
10
dos lbios e seus beijos, sensuais e exigentes, excitaram-no uma vez
mais.
De volta ao quartel, um pensamento que lhe ocorrera fora o de que uma das 
mais urgentes providncias que o prncipe consorte precisava tomar era a 
de tirar jovens como lady Louise e lady Augusta do servio de atendimento 
 rainha.
O conde achara a rainha deveras encantadora, exatamente o tipo de mulher 
que todo homem gostaria de ter.
Gostara do jeito perdidamente apaixonado com que olhava para o marido 
alemo. Ela era muito jovem, sincera e parecia visivelmente ansiosa por 
agradar a todos os seus sditos.
A atmosfera na corte, desde o casamento deles, tornara-se calma e digna, 
com um respeito s formalidades que qualquer cidado gostaria de ter na 
prpria casa.
Apesar de que em Londres abundavam lugares de divertimentos masculinos, 
para todos os gostos, a questo era bem diferente quando se tratava da 
vida familiar.
Analisando a situao com honestidade, o conde conclura ter ficado 
chocado com o comportamento de lady Louise no tanto por ela ser 
promscua, ou por oferecer-se com uma paixo selvagem, mas por ter 
acontecido sob o teto do lar santificado da rainha.
Mais uma vez reafirmara a si mesmo que estava certo em julgar que 
mulheres de moral duvidosa, quaisquer que fossem suas procedncias, 
deviam ser impedidas de conviver com senhoras respeitveis.
Confortava-o o pensamento de que tanto ele quanto lady Louise tinham 
conscincia de que o que acontecera entre eles no passava de uma 
aventura passageira.
Ela no fizera qualquer meno de que pudessem se encontrar novamente e 
ele, com todas as responsabilidades que tinha  sua frente, sabia que 
logo sequer se lembraria dela.
O episdio, sem dvida, estava acabado de seu ponto de vista,
11
embora admitisse que em muito contribura para tornar bem mais
excitante sua visita ao castelo de Windsor.
Eis que, repentinamente, no dia anterior uma verdadeira bomba parecia t-
lo atingido.
O conde fora convidado para participar de um jantar semioficial no 
palcio de Buckingham, um dos muitos eventos antecipando a temporada de
recepes, visitas, bailes e aparies pblicas do monarca.
Tivera uma sensao estranha ao ser convidado como conde de Rockbrook e 
no mais como um simples oficial a servio do general, sensao essa que 
se afirmou quando seu nome fora solenemente anunciado no imponente salo 
do palcio.
A rainha cumprimentara-o gentilmente, com o sorriso especial que 
reservava para homens atraentes.
Ele, por sua vez, fizera uma mesura ao ser apresentado a ela, estendendo-
lhe a mo direita e curvando-se, reverentemente, para roar os lbios na 
mo que a rainha, por sua vez, dera a ele.
Ao levantar-se, o conde mais uma vez curvou-se, discretamente, diante de 
Sua Alteza, depois para o prncipe Albert, afastando-se  procura de um 
rosto familiar.
Dessa vez, mais do que nunca, impressionou-o o colorido do enorme salo, 
redecorado por George IV, por onde circulavam as damas com suas jias 
cheias de brilho e os cavalheiros envergando uniformes ou trajes da 
corte, com casacos cor de vinho, culotes, meias brancas, sapatos pretos 
afivelados e uma espada  cintura.
Ficara satisfeito ao reconhecer entre os convivas o primeiroministro, sir 
Robert Peei, de quem gostava e admirava muito.
Sir Robert podia ser um tanto drstico em certas ocasies e, sem dvida, 
era muito diferente de seu predecessor, lorde Melbourne, um homem muito 
amvel e atraente.
12
O conde aproximara-se dele e os dois mantiveram uma acalorada discusso 
poltica at a hora em que o jantar fora anunciado.
Ele no pudera deixar de notar que tanto a comida quanto o servio haviam 
melhorado consideravelmente desde que o prncipe consorte assumira 
pessoalmente a administrao. Observando-o sentado  cabeceira da mesa, 
do lado oposto ao da rainha, percebia-se sua firme inteno de levar 
avante a gigantesca tarefa a que se propusera, embora ainda tivesse muito 
a fazer.
Era notrio que enquanto o povo aceitara o prncipe sem restries, 
mostrando entusiasmo toda vez que ele aparecia em pblico, as classes 
mais altas lhe permaneciam indiferentes, e toda a famlia real, ento, 
lhe era ainda abertamente antagnica.
"O que ser que o faz to impopular?", o conde perguntara a si mesmo.
Achava estranho que todos os predicados do prncipe - sua prudncia, sua 
astcia, seu talento como caador, msico, cantor - provocassem antipatia 
e cimes em vez de admirao.
A verdade, o conde entendia bem,  que, por mais que o prncipe consorte 
se esforasse por parecer britnico, ele era irremediavelmente e, s 
vezes, arrogantemente germnico.
Subitamente, apoderara-se dele um sentimento de solidariedade e 
comiserao por aquele homem, que estava distante de sua ptria, de tudo 
o que lhe era familiar e tendo que assumir um papel que no devia ser 
nada agradvel para qualquer um: o de ter papel secundrio ao da mulher, 
mesmo se tratando da rainha da Inglaterra.
"Qualquer casamento deve ser uma droga numa circunstncia dessa!", 
conclura o conde.
Uma vez mais sentira-se confortado de no ter se casado. A vida de 
solteiro tinha todas as vantagens que um homem inteligente pudesse 
desejar.
13
"Um dia vou precisar ter um filho...", pensou meio nostlgico, lembrando-
se de que agora cabia a ele a responsabilidade da continuidade da
famlia. Entretanto, aos trinta e dois anos ainda tinha tempo pela
frente. No havia razo para pressa.
Quando a rainha e o prncipe consorte retiraram-se, todos foram se 
despedindo e deixando o palcio.
Depois de trocar uma ltima palavra com o primeiro-ministro, o conde 
dirigia-se  porta quando fora abordado pela duquesa de Torrington.
A figura daquela mulher era qualquer coisa de extraordinria. Usava uma 
exuberante tiara na cabea, uma verdadeira cascata de prolas sobre o 
amplo decote do vestido, que por sinal era bem mais curto do que 
recomendava o costume.
- Estava para lhe escrever, milorde - dissera-lhe, bastante formal. - 
Esse encontro facilita as coisas.
O conde inclinara a cabea, antecipando que receberia um convite. No 
mesmo instante, ocorrera-lhe que a duquesa era a me de lady Louise.
- Podemos contar com sua presena no castelo de Torrington, na prxima 
quarta-feira? - ela lhe havia perguntado.
O conde ia abrir a boca para dizer que lamentava j ter assumido outro 
compromisso quando a duquesa acrescentou:
- Pelo que minha filha Louise me disse, sei que tem uma razo especial 
para querer conversar com meu marido.
Dera um sorriso compreensivo ao conde e prosseguira:
- Ele tambm est ansioso para v-lo, meu caro lorde Rockbrook, e 
permita-me dizer-lhe que o senhor j me fez ficar muito, muito feliz.
Batera de leve com o leque no brao do conde e afastara-se, deixando-o 
perplexo.
Por um momento parecera-lhe no ter entendido bem o que ela tentara lhe 
dizer. Compreendera, em seguida, que no havia
14
engano algum. Ela fora bem clara e ele no via como poderia se safar
daquela situao.
O duque de Torrington era muito importante nos crculos da corte, e a 
duquesa havia herdado o posto de dama de honra da rainha. Se haviam 
decidido, ou melhor, se Louise havia decidido que ele era um genro 
aceitvel, no havia outra coisa a dizer ou a fazer a no ser torn-la 
sua esposa.
A ideia apavorava o conde. Por mais que aquela mulher o excitasse 
fisicamente, no conseguia am-la e ela absolutamente no era o tipo de 
esposa que imaginara para compartilhar de sua vida e criar seus filhos.
Apesar de raramente pensar no assunto, sabia muito bem o tipo de mulher 
que desejava como companheira.
Em primeiro lugar, queria que fosse bonita e tivesse uma presena 
marcante. Gostaria que fosse alta, muito digna e merecedora das jias da 
casa dos Rockbrook.
Em segundo lugar, ao imaginar a esposa ideal, ele tinha certeza de no 
desejar se casar com algum que despertasse nele o tipo de emoes at 
certo ponto embaraosas.
Obviamente queria sentir afeio por sua esposa. Iria tratla com o maior 
respeito e faria o possvel para proteg-la de preocupaes e 
aborrecimentos, por menores que fossem.
Desde que tivera idade suficiente para pensar, sempre achara que as 
mulheres dignas de respeito so realmente diferentes das que visam apenas 
ao divertimento.
No Condado de Rockbrook, o importante era ter algum de conduta exemplar, 
uma verdadeira dama que fosse acima de tudo um complemento para ele 
mesmo, algum com quem pudesse ter filhos, algum de quem verdadeiramente 
pudesse se orgulhar.
Lady Louise, entretanto, no possua nenhum desses predicados. Tinha 
plena conscincia de que no era o primeiro homem a merecer seus favores 
e no tinha iluses de que, uma
15
vez casados, ela certamente continuaria mantendo o mesmo comportamento
audacioso.
Era bem do tipo de mulher sempre pronta para fazer tudo o que lhe
passasse pela cabea, sem medir as consequncias.
A frase que lhe fora dita com relao a lady Augusta podia perfeitamente
ser aplicada a lady Louise. Apavorava-o pensar em casar-se com uma mulher
por quem tinha menos respeito do que pela prostituta que  noite saa a 
caminhar por Picadilly.
"O que devo fazer? Por Deus, o que devo fazer?", perguntava-se desde 
ento.
Deixara Londres muito cedo naquele dia, completamente desnorteado. No 
via a hora de chegar a Rock, tendo a sensao de que l sentir-se-ia mais 
seguro.
Ao transcorrer das horas, porm, aumentava sua repugnncia  ideia de 
instalar lady Louise naquela casa ancestral, como sua mulher.
Atirou-se numa poltrona da biblioteca, e percorreu com os olhos os livros 
encadernados em couro, como se um deles pudesse lhe dar a resposta que 
procurava.
A porta foi aberta pelo mordomo, que entrou seguido por um copeiro.
- Milorde, o almoo estar pronto em quinze minutos. Achei que lhe 
agradaria beber alguma coisa - falou o mordomo, indicando-lhe uma bandeja 
que o copeiro trazia, repleta de bebidas variadas.
- Vou tomar um brandy.
Normalmente, teria optado por um clice de vinho madeira, mas estava com
a alma sobressaltada demais e precisava de algo mais forte, apesar de
saber que no existia nada suficientemente forte para destruir a ameaa
que pairava sobre sua cabea.
Ao ficar novamente sozinho, resolveu consigo mesmo que
16
teria de tomar uma atitude, embora no lhe ocorresse de imediato o que
poderia fazer.
Sem dvida, teria sempre a alternativa de recusar o convite da duquesa e 
ir adiando sucessivamente a temida conversa com o duque at que lady 
Louise desistisse da ideia.
Preocupava-o, porm, que, influenciada por seu temperamento audacioso, 
Louise decidisse informar aos pais que havia sido seduzida por ele, em 
pleno castelo de Windsor.
( Podia avaliar o escndalo que surgiria. Muito provavelmente isso 
fomentaria mexericos semelhantes queles que circularam sobre a provvel
gravidez de lady Augusta Somerset.
Naquele caso especfico, apesar do boato ter um certo fundamento, o
prncipe Albert acreditou que fosse integralmente verdadeiro, chegando ao
ponto de tanto ele quanto -a rainha se recusarem a falar com lady
Augusta, instruindo as demais ladies a que fizessem o mesmo.
Como era de se esperar, os Cambridge ficaram extremamente ofendidos com 
essa atitude e os Beaufort ferveram de indignao.
O conde no podia imaginar nada pior para o comeo de sua nova vida como 
chefe da famlia Rockbrook do que ser alvo do mesmo tipo de escndalo e 
comentrios.
Restava-lhe, ento, na verdade, uma nica sada. Cair na armadilha que 
lady Louise to bem lhe preparara e casar-se com ela.
Revoltava-o, contudo, saber que, se no tivesse herdado o ttulo, ela 
jamais sequer olharia para ele.
O duque de Torrington nunca aceitaria um candidato, sem vintm,  mo de 
sua filha, mesmo que fosse um oficial do exrcito bem relacionado como 
ele.
Por incrvel que pudesse parecer, sentia-se agora em perigo semelhante ao 
que enfrentara com um pequeno batalho, na
17
fronteira noroeste da ndia, quando foram cercados por uma tribo de 
selvagens, em nmero bem superior ao deles.
Naquela situao, s lhes restava esperar pela morte inevitvel e 
sangrenta.
Felizmente, haviam sido salvos no ltimo instante; mas agora o conde no 
via a menor possibilidade de escapar.
"O que poderia fazer? "
Essa pergunta martelava-lhe a cabea desde a noite anterior e o conde 
temia a chegada do momento implacvel em que teria de enviar uma resposta 
 duquesa.
Vinha-lhe  memria o dilogo que travara com ela, depois de formulado o 
convite, e essa lembrana angustiante fazia-o sentir que desde ento 
estava vivendo um verdadeiro pesadelo.
-  muito amvel, duquesa. Permita-me que lhe envie posteriormente uma 
resposta se realmente poderei ir na quartafeira?
- Claro - a duquesa replicara, com um sorriso cheio de cumplicidade. - 
Mas, se tiver um outro compromisso para a quarta-feira, naturalmente 
teremos muito prazer em receb-lo no dia em que achar mais conveniente.
O conde tivera mpetos de alegar que esse dia nunca chegaria e ficou em 
maior pnico ainda quando a duquesa acrescentara:
- Sei o quanto anseia estar com Louise e ela com o senhor.
Felizmente ela no aguardara sua resposta, afastando-se dele com ar 
imponente. A muito custo ele conseguira mover-se, caminhando na direo 
oposta.
O conde sara da sala de jantar completamente alheio a tudo que o 
rodeava. Caminhara lentamente pelas salas e corredores  at a
biblioteca. A decorao de todos os ambientes era extremamente sbria,
com uma ligeira aparncia de museu devido  imensa quantidade de tesouros 
de arte e decorao colecionada pelos Brook atravs dos sculos.
18
Numa frao de segundo, passou pela cabea do conde que estava faltando 
um toque feminino naquela casa, e ele teve um estremecimento. Sua tia 
falecera h mais de dez anos e, gradualmente, a casa fora ganhando uma
aparncia cada vez mais masculina.
Ele disse a si mesmo que era daquela atmosfera masculina que ele
realmente gostava. No queria mulher alguma em Rock. No queria uma 
mulher tagarelando pelos cmodos, exigindo sua ateno e, pelo amor de 
Deus, no queria especialmente Louise em sua cama!
Jogou-se numa poltrona e deixou-se ficar por algum tempo. Levantou-se, de 
sbito, afirmando a si mesmo que no podia ficar naquela prostrao. 
Precisava se mexer, precisava de exerccio, precisava fazer qualquer 
coisa, menos ficar pensando nos beijos acalorados de Louise, na paixo 
que ela havia acendido nele e que agora s lhe causava repugnncia.
Tocou o sino e, quando o criado apareceu, pediu-lhe que selasse um 
cavalo.
- Quero o cavalo mais indcil do estbulo!
- Pois no, milorde. Quer que um lacaio o acompanhe?
- No, vou cavalgar sozinho.
Decidido a combater a angstia que o dominava, o conde
subiu para vestir uma roupa de montaria. O empregado, que durante anos 
fora seu ordenana no exrcito, manteve-se calado, no querendo agravar 
ainda mais o evidente mau humor do patro. O conde tambm no disse uma 
palavra at estar pronto. Ento recomendou:
- No sei quanto tempo vou ficar fora, Bates, mas, se demorar, no quero 
que mande ningum por a  minha procura. Sei muito bem tomar conta de 
mim sozinho, voc sabe disso.
Bates sorriu. Realmente sabia melhor do que ningum como
19
o conde era perfeitamente responsvel por si mesmo, como tambm por todos os que serviam sob suas ordens.
- Fique tranquilo, no vou deixar que se preocupem com o senhor, milorde.
No foi muito fcil montar o garanho indcil e arredio que estava a sua espera  porta de entrada.
Intimamente, o conde desejava que, ao ar livre, pudesse esfriar a cabea e encontrar uma soluo para seu problema, Sua ateno, no momento, estava toda voltada 
em tentar controlar o animal.
To logo deixaram para trs as rvores do parque, soltou as rdeas do cavalo e permitiu que ele galopasse pelo campo. A velocidade que o animal logo ganhou mais 
uma vez impediu que pensasse em outra coisa que no o exerccio da equitao, o que, se no lhe trazia consolo para a mente, proporcionava-lhe grande satisfao 
ao corpo.
O cavalo finalmente diminuiu a marcha e o conde foi novamente sobressaltado pela lembrana do possvel casamento.
"Por que", perguntava-se a si mesmo, "fui to estpido de me deixar envolver por uma mulher solteira?"
Na realidade, no tivera grande escolha. Poderia ter dispensado Louise de sua cama, mas teria sido um tolo.
No passado, todos os seus casos amorosos haviam sido com sofisticadas mulheres casadas, que conheciam muito bem as regras do jogo e no tinham interesse algum em 
contrari-las.
No que algumas no tivessem desejado. Ele era atraente e bem-apessoado, alm de um amante ardente. Muitas mulheres haviam lhe dado o corao, embora ele apenas 
desejasse seus corpos.
- Eu o amo. Oh, Lytton, eu o amo! - ouvira repetidas vezes em sua vida.
Isso o envaidecia e gratificava, mas ao mesmo tempo no se
20
lembrava de ter desejado ao menos uma vez tornar o caso permanente, nem ter tido qualquer dificuldade ou pesar em dizer adeus.
 Cuidado com mes ambiciosas de filhas casadoiras!
Ouvira a recomendao inmeras vezes, e, especialmente na ndia, tratara de tomar o mximo cuidado com as jovens que conhecera.
Ao deixar Oxford, seu pai dera-lhe uma orientao muito clara e precisa com relao ao sexo frgil, na qual baseara sua atitude para com as mulheres.
- Vou mand-lo para o Grenadiers, Lytton - dissera-lhe circunspecto. -  o regimento da famlia e me envergonharia de v-lo servindo em outro.
- Sou-lhe muito grato, sir.
- Deve ser mesmo! - o pai afirmara. - Vai ver que no poder arcar com qualquer extravagncia e isso significa que deve ter cuidado com as mulheres que procuram 
tirar dinheiro de jovens inexperientes.
- Vou me lembrar de seu aviso, sir - assegurara ao pai, com um sorriso.
- Sei -que no pode nem pensar em se casar to cedo, mas vou lhe dizer o que meu pai me disse. - Prosseguira o pai:
- Ame-as e deixe-as!
Rira na ocasio, mas sempre lembrava-se daquelas palavras do pai.
No que mes ambiciosas tivessem se interessado muito por ele. Afinal um oficial subalterno sem dinheiro algum no exercia nenhuma atrao especial sobre elas.
A situao agora era bem diferente. com seu ttulo e toda a sua fortuna, era, sem dvida, o alvo de grande interesse tanto por parte das mes, como das filhas casadoiras.
No esperava, porm, que lady Louise agisse to rapidamente. Ela, sem dvida, ganhava disparado a corrida, enquanto as outras no tinham sequer ultrapassado a linha 
de partida.
21
"Ela me fisgou direitinho!", pensou, inconformado por no conseguir
imaginar qualquer plano de ao para livrar-se das malhas daquela mulher.
No contendo a revolta que fazia o sangue lhe ferver nas veias, chicoteou
o cavalo. Este desembestou numa desenfreada carreira, como se, indignado
com o tratamento, quisesse dar uma lio a seu cavaleiro.
O conde pressentia que teria dificuldade em domin-lo. Ajeitou-se melhor 
na sela e tentou deixar-se envolver pela deliciosa sensao de cortar o 
ar com a velocidade.
Ao avistar as rvores um pouco mais adiante, temeu que o cavalo se 
aproximasse muito delas. Poderia acabar pendurado num dos galhos!
O garanho galopava selvagemente quando se deu o inesperado tropeo. 
Instintivamente o conde percebeu que o animal havia enfiado a pata numa 
toca de coelho.
Lutou, por um momento frentico, para manter o cavalo sob controle. Foi 
em vo. Mais rpido do que o prprio pensamento, sentiu-se sendo Atirado
ao cho. Seguiu-se o impacto violento da batida e a dolorosa sensao de
uma clavcula quebrada.
22

CAPTULO II
A primeira sensao que o conde teve ao voltar a si foi a de estar
percorrendo vagarosamente um corredor muito longo e escuro. Em seguida,
ouviu vozes e imaginou que estava acordando de um sono muito profundo.
- Voc deve descansar, bab - algum dizia. - Esteve com ele a noite 
toda! Agora eu fico, enquanto dorme um pouco.
- No gosto de deix-la sozinha com um homem, miss Priscilla, e ponto
final! - retrucou uma voz mais grave, de pessoa mais velha.
- No vejo perigo algum!
- Talvez no haja, mas no  certo ficar sozinha  cabeceira de um homem, 
como sabe muito bem.
- Se ele est inconsciente e no tem a menor ideia de que eu seja uma 
mulher ou um elefante, que diferena faz?
- Sei muito bem, miss Priscilla, o que  certo e o que  errado.
- O certo, bab,  voc ir deitar-se um pouco, caso contrrio no vai 
aguentar por muito tempo, e da o que vou fazer? Seja razovel!
- Vou fazer o que me pede, miss Priscilla, sob uma condio. Assim que o 
cavalheiro acordar, a senhorita vai imediatamente me chamar.
- Acho que ele vai dormir por uns cem anos, como o Rip van Winkle!
A governanta soltou uma exclamao reprovadora e saiu do quarto. Ao ouvir 
a porta ser fechada, o conde abriu lentamente os
23
olhos. A cabea doa-lhe muito. Lembrou-se ento da queda do cavalo.
"Devo ter perdido os sentidos", pensou.
Percebeu que estava num quarto estranho, numa cama que no era a sua e 
piscou um pouco devido  claridade que entrava no quarto.
Os raios do sol se refletiam nos cabelos dourados da moa parada junto  
janela semi-aberta e delineavam sua silhueta esguia.
Ocorreu-lhe muito vagamente que aquela devia ser Priscilla. No momento 
seguinte, fechando os olhos, ele voltou a mergulhar na serena penumbra da 
inconscincia.
Quando acordou novamente, o sol j havia se posto. Estava tudo escuro; 
apenas a luz de uma vela ao lado da cama iluminava de maneira tnue o 
aposento.
Ele mexeu-se ligeiramente. Uma mo firme levantou-lhe um pouco a cabea e 
levou um copo aos seus lbios, fazendo-o beber o que lhe pareceu uma 
limonada, adoada com mel.
- Agora durma novamente! - ordenou-lhe sua benfeitora.
Ela falava num tom to familiar que lhe lembrava a voz da governanta da 
sua prpria infncia, e o conde soube imediatamente que devia ser a 
"bab", cuja voz j tinha ouvido, no podendo dizer se naquele mesmo dia 
ou h mais tempo.
Como estivesse muito cansado, obedeceu  recomendao sem contestar e 
adormeceu calmamente.
Na manh seguinte acordou com uma sensao de extrema ansiedade para 
descobrir o que estava acontecendo.
Lembrava-se bem de terem lhe dado qualquer coisa para beber na noite 
anterior, das vozes que ouvira conversando ao seu lado, e, gradualmente, 
voltou  mente o galope desenfreado que culminara com sua queda.
Teve conscincia tambm de que no podia culpar ningum.
24
A responsabilidade da queda era inteiramente sua. Estava zangado e
incitara o cavalo ao galope.
Olhou ao redor. O quarto estava vazio agora. Onde estaria?
Uma pequena tentativa de se mexer um pouco provocou-lhe dores no brao.
Abaixou ligeiramente a cabea e, para sua consternao, verificou que
estava com o brao numa tipia. Lembrou-se ento da sensao de ter
quebrado a clavcula ao cair.
A porta se abriu e, sem que fosse necessria uma apresentao, ele sabia
que era a bab que entrava. Era uma mulher de meia-idade, de cabelos
grisalhos, cujo rosto expressava, simultaneamente, bondade e autoridade.
- Est acordado, sir?
- Estou, sim - o conde respondeu. - Por favor, diga-me onde estou.
- Est na herdade de Little Stanton h trs dias, sir.
O conde lembrou-se de uma pequena vila a cinco ou seis quilmetros de
Rock House.
- Acho que quebrei a clavcula.
- Receio que sim, sir, mas, como goza de perfeita sade, logo estar 
recuperado.
- Disse que estou aqui h trs dias. Ento fiquei desacordado todo esse 
tempo?
- Creio que quando caiu do cavalo o senhor, desastradamente, bateu a 
cabea.
O conde achou graa no ligeiro tom de censura que havia na voz da 
governanta.
- E meu cavalo?
- Est manco, sir, mas logo ficar bom com o tratamento que estamos dando 
a ele em nossos estbulos.
- A quem devo tamanha hospitalidade?
A governanta hesitou por um momento e depois respondeu:
25
- A casa era do major Cranford, antes de ser morto na ndia.
- E agora?
- A viva dele mora aqui, mas est viajando no momento, sir.
- Quando estava semiconsciente, tive a impresso de ouvi-la conversar com 
algum de nome Priscilla.
- Miss Priscilla - ela informou meio relutante -  a irm mais nova do 
major Cranford.
- Creio que ela a ajudou a cuidar de mim...
-  que o senhor estava inconsciente, sir.
- De qualquer maneira, sou-lhes extremamente grato.
Foi necessrio um grande esforo para falar tanto e o conde ajeitou-se, 
prostrado, nos travesseiros.
- Vou ajud-lo a lavar-se, sir, e pedirei que lhe preparem algo para 
comer.
O conde sorriu.
- Agora  que me dou conta de como estou faminto.
- Mandarei que lhe tragam a refeio, logo que terminar de ajud-lo em 
sua toalete.
Quando ela saiu do quarto, o conde perguntou a si mesmo se realmente 
haveria outros criados a quem ela pudesse pedir ajuda, ou se aquela era 
apenas uma desculpa para ir avisar Priscilla de que o enfermo havia 
voltado a si.
Por um momento, ficou imaginando como seria sua anfitri, mas seja l 
como fosse no restava dvida de que a bab era muito zelosa a respeito 
dela.
Foi com muito esforo que suportou ser lavado, barbeado, penteado e ter
a roupa de cama trocada.
- Agora coma o mximo que puder - a bab recomendou.
- Precisa recuperar suas foras depois de ter estado delirante por trs 
dias.
- Delirante? - surpreendeu-se o conde.
26
 comum acontecer isso, depois de ter levado uma batida
to forte na cabea.
- Falei muita bobagem?
- No prestei muita ateno.
- O que eu dizia?
- Apesar de no ter ficado atenta, sir, uma vez ou outra pareceu-me que 
tentava escapar de alguma coisa ou de algum.
Foi ento que o conde lembrou-se de Louise e, por um momento, teve 
vontade de cair novamente na inconscincia para poder se esquecer da 
existncia dela.
A deliciosa refeio que saboreava com tanto prazer pareceu perder o 
gosto.
Ainda assim, depois de ingerir ovos com bacon, torradas com manteiga e 
mel e duas enormes xcaras de caf, animou-se um pouco.
Gentilmente, a bab tirou a bandeja.
- Procure dormir agora e relaxar bem at que o mdico chegue para v-lo.
- O que gostaria realmente era de ver miss Cranford retrucou o conde -, e 
apresentar a ela as minhas desculpas por tanto trabalho e inconvenincia 
que estou lhes causando.
- Seria melhor dormir, sir.
Ao v-la olhar receosa em direo  porta, o conde teve a impresso de 
que miss Priscilla estava ali atrs,  escuta.
Pois estava certo. No minuto seguinte, fez-se ouvir a voz clara e alegre 
da sua jovem hospedeira:
- Posso entrar?
-  melhor que ele durma antes que o dr. Jenkins venha v-lo - protestou 
a bab, zangada.
- Ele est descansando h dias! - respondeu Priscilla, entrando no 
quarto.
A jovem aproximou-se da cama e o conde achou interessante
27
que sua aparncia correspondesse exatamente  imagem mental que havia 
feito dela, depois de ouvir sua voz.
Era muito bonita e esbelta e loira. Em seu rosto sobressaam-se dois
enormes olhos azuis, extremamente vivos e expressivos. O ar brejeiro que
lhe brincava no rosto a diferenciava em muito de todas as outras moas
loiras que j conhecera.
Olhou admirada para o conde e ele lhe disse, com um sorriso:
- Como pode ver, Rip van Winkle no demorou tanto para acordar!
A pequena gargalhada que Priscilla soltou soou como um gorjeio.
- Ento ouviu o que eu disse?
- Ouvi-a dizer muitas outras coisas, mas ainda estava semiconsciente.
- Mas j se sente melhor, no ?
- Muito melhor; e desejo agradecer-lhe pela hospitalidade. Estou curioso 
para saber como me encontraram.
- Eu o encontrei. Na verdade, eu o vi cair quando o cavalo tropeou. 
Aquela regio  muito perigosa por causa das tocas de coelho. Nunca vou a 
cavalo at l.
- Devia ter sido mais prudente - o conde disse pensativo. - Como poderia 
saber das tocas de coelho se no  da
regio?
- Coitado do cavalo!
- Ben disse que, depois daquela contoro, a perna dele vai demorar um 
pouco para se recuperar e que no vai ser possvel mont-lo antes de um 
ms. Ainda assim, vai precisar de muito cuidado.
Havia tal ansiedade na voz da jovem que o conde procurou tranquiliz-la:
- Pode confiar em mim, no vou mont-lo antes que esteja perfeitamente 
bem.
28
- De todo jeito, o senhor tambm no vai poder montar
to cedo.
Priscilla sentou-se numa cadeira ao lado da cama. O conde ouvia a bab, 
que descera enquanto conversavam, subindo de novo.
- Desculpe-me todo esse trabalho - disse  moa. - Entretanto, ainda no 
me disse a razo de ter me trazido para c.
- Porque nossa casa  a mais prxima - Priscilla respondeu, com 
simplicidade -, e no h outro lugar por aqui onde pudesse ficar, com 
exceo do Vicariato, com seis crianas barulhentas!
- Fico contente que tenha sido voc a boa samaritana e no o vigrio!
- Para lhe ser sincera, como minha cunhada est ausente, a bab ficou em 
princpio quase que chocada ante a ideia de traz-lo para c, mas bem que 
est gostando de cuidar do senhor.
- Gostando?
Priscilla piscou muito os expressivos olhos azuis.
- Ela adora ter algum para mimar. Acho que  porque gosta de dar ordens, 
e por mais que o doente proteste tem de fazer o que ela manda.
O conde teve vontade de soltar uma boa gargalhada, mas temendo que 
pudesse sentir alguma dor limitou-se a sorrir.
- Minha bab era exatamente igual - disse, com uma expresso de ternura.
- Tentei lutar contra a tirania dela por anos, sem sucesso algum. Imagine 
que, quando fui para o colgio, no achei os mestres to autoritrios 
quanto ela havia sido.
Priscilla soltou novamente sua gargalhada melodiosa.
- Acho que todas as babs so iguais. A minha  severssima comigo, mesmo 
agora que j sou adulta.
Como se atrada pelo fato de falarem dela, a bab materializou-se  porta 
do quarto.
- Bem, miss Priscilla - disse, autoritria -, no quero Que canse meu 
paciente com suas conversas.
29
- No estou absolutamente cansado - o conde apressou-se a dizer e estava 
sendo completamente sincero.
- Procure dormir agora, sir - a bab disse, categrica.
- Basta que feche os olhos para ver como est precisando descansar.
O conde abriu a boca para dizer que no tinha a menor inteno de dormir. 
Antes que se desse conta, porm, Priscilla j havia sido banida do 
quarto, as venezianas haviam sido semicerradas e, contra sua vontade, ele 
sentiu-se mergulhando no mundo dos sonhos.
O conde s viu Priscilla novamente no final da tarde.
O mdico fora visit-lo e recomendara muito descanso. A bab trouxera-lhe 
um excelente almoo e reafirmara um rosrio de ordens e recomendaes.
Mesmo contrafeito com sua situao, ele sentia que, por menos inteno 
que tivesse de dormir, assim que fechava os olhos caa no mundo da 
inconscincia e para sua surpresa cada vez acordava mais lcido.
Aproximava-se agora a hora do ch. Priscilla entrou no quarto trazendo um 
vaso com violetas brancas, que colocou na mesa-de-cabeceira.
- Estava colhendo violetas no dia em que o vi cair do cavalo - disse-lhe 
com naturalidade. - Como pode ver, estou sempre pelos bosques colhendo-
as. Acho uma sorte quando consigo formar um buque como o de hoje, somente 
de violetas brancas, que so as mais raras.
- Sorte foi voc ter me visto cair, caso contrrio poderia ficar 
estendido naquele lugar por dias!
- Levou uma hora para que eu conseguisse juntar alguns homens para ir
busc-lo. Pensei que outra pessoa at j o tivesse encontrado.
- Reconheo que lhe dei um bocado de trabalho!
- At que foi excitante! - Priscilla o contradisse. - No
30
acontece nada em Little Stanton. Assim, pelo menos tivemos alguma coisa
diferente para fazer.
Ela calou-se significativamente por um momento, depois acrescentou:
- Como pode imaginar, todos esto curiosos para saber quem voc .
O conde sorriu. Era evidente que, pelo modo com que Priscilla falara, 
estava to curiosa quanto os demais para saber sua identidade.
Ficou tentado por um momento a permanecer annimo, ou dar nome falso.
Ocorreu-lhe, porm, que, apesar de ter recomendado a Bates que no o 
procurasse, quela hora todos certamente estariam preocupados com sua 
ausncia e era justo que os tranquilizasse.
- Espero que j tenha ouvido falar de Rock House. Ela o olhou surpresa e 
exclamou, eufrica:
-  de l? Mas claro! Que tola eu sou! Devia ter logo imaginado deve ser 
o novo conde!
- Pensei que tivesse desconfiado...
- Ouvi dizer que um sobrinho do conde havia herdado o ttulo, mas jamais 
esperei v-lo em Little Stanton.
- Pois aqui estou!
- Devem estar preocupados com sua demora em Rock House... Para ser 
sincera - acrescentou, em tom muito srio -, a bab olhou nos bolsos de
seu casaco para ver se havia qualquer coisa que o identificase, no
caso de seu estado piorar.
- Ah, ficaram preocupadas que eu viesse a falecer? Priscilla sorriu.
- Qual nada! com essa sua aparncia grande e forte, no pensei em momento 
algum que as consequncias pudessem ser to graves.
- E no foram! - o conde concordou. - Sinto-me at envergonhado
31
de estar me comportando feito um invlido, especialmente numa
casa estranha. Priscilla riu novamente.
- Se pudesse prever que um invlido nos iria cair do cu, naturalmente 
no poderia desejar outra coisa a no ser que fosse um "estranho alto, 
forte e atraente", exatamente como a bab prev quando l minha sorte nas 
folhas de ch.
- Ora, vejam, ento a bab l a sorte?
- Somente quando insisto muito - Priscilla esclareceu.
- Apesar de ser escocesa e meio vidente, ela desaprova completamente que 
se brinque com o "desconhecido".  raro conseguir que se disponha a ler a 
sorte.
- No acho que seja muito difcil faz-lo.
- Por que diz isso? - perguntou Priscilla, curiosa.
- Porque  bvio que mais cedo ou mais tarde um "estranho alto, forte e 
atraente", como diz, vai aparecer em sua vida.
O tom do conde era meio brincalho, mas Priscilla respondeu com ar srio:
- Sabe que isso j aconteceu?
- com voc? - o conde sentiu uma estranha excitao.
- Comigo, no, mas com minha cunhada Elizabeth.
Sem entender bem a razo, uma leve sensao de desapontamento invadiu-o.
- Elizabeth sentia-se muito infeliz desde a morte de meu irmo Richard,
mas apareceu aqui, inesperadamente, um estranho e acho que vo se casar.
Ao ouvi-la falar, o conde no pde deixar de observar a expresso dos
olhos dela, que pareciam refletir tudo o que lhe ia na alma.
- Deve estar satisfeita.
- Creio... que sim - hesitou um pouco. - Desejo que ela seja muito feliz,
mas... fico um pouco preocupada com a minha prpria situao, pois
Elizabeth e todos em geral acham errado que a bab e eu fiquemos sozinhas 
aqui.
32
- Quer dizer que sua cunhada vai se mudar daqui?
Sim,  claro. O homem com quem vai se casar tem uma
linda casa do outro lado do Condado. Ele disse que eu poderia ir morar
com eles at me casar... mas sei muito bem que nem ele nem Elizabeth me
querem l.  natural que prefiram estar sozinhos.
O conde teve a impresso de ler atravs dos olhos de Priscilla tudo o que 
estava pensando e podia entender perfeitamente a situao da jovem.
Como se o assunto estivesse se concentrando muito nela mesma, Priscilla 
perguntou:
- Gosta de ser o conde de Rockbrook? Sempre achei que deve ser 
formidvel.
- E  - concordou o conde sorrindo.
- Mas tambm deve ser meio penoso - prosseguiu a moa, como se estivesse 
ponderando consigo mesma - herdar o ttulo por causa da morte de dois 
parentes.
- De fato  uma grande responsabilidade - assegurou o conde, ficando 
encantado com o amadurecimento e sensibilidade da jovem. - Por isso, 
agora que estou consciente, acho que  mais do que tempo de mandar um 
aviso a minha casa de que estou aqui e, assim que melhore um pouco, devo 
ser levado para l.
- No h pressa, senhor. Ser levado agora seria imprudente e doloroso.
- Espero que no passe de mais um ou dois dias, mas h algum que pudesse 
levar um recado at l?
- Naturalmente. Eu mesma posso ir. Apesar de nossos cavalos no serem to 
velozes, nem to bem tratados quanto o seu, esto habituados a levar 
Elizabeth e a mim para todo lugar que queiramos ir.
- Acho que seria melhor que mandasse uma outra pessoa
- o conde disse, categrico.
Ele no podia deixar de pensar que a ida de Priscilla at sua
33
casa e o fato de o estar hospedando daria margem a muitos comentrios.
- Se acha melhor, Ben pode ir ento.
- timo - o conde aprovou. - Se no for lhe pedir muito, poderia me 
arrumar papel e caneta?
Escreveria para o administrador geral, um homem chamado Anstruther, que 
estava cuidando de tudo at que designasse um novo secretrio, uma vez 
que o antigo se aposentara com a morte do tio.
Havia vrios cargos vagos em Rock. Muitos acharam que a mudana de senhor 
era o momento oportuno para se afastarem dali. O conde estava aguardando 
o momento oportuno de examinar o assunto com o administrador para nomear 
as pessoas melhor qualificadas para cada cargo.
Priscilla saiu e logo voltou com o papel e a caneta. Como o conde tivesse 
dificuldade em escrever por causa do brao esquerdo na tipia, ela 
segurou o papel para que ele escrevesse a carta dando as instrues que 
queria.
Estava para assinar quando lhe ocorreu que a melhor maneira de compensar 
Priscilla por todo aquele trabalho era proporcionar-lhe alguns prazeres 
gastronmicos que estava certo eram difceis de se obter em Little 
Stanton.
Acrescentou ento um post scriptwn a sua carta, pedindo que lhe enviassem 
frutas, ovos, leite, carne de carneiro, de frango e presunto.
- A bab deve ter encontrado algum dinheiro ao revistar meus bolsos. 
Pergunte-lhe onde o colocou e d um guinu a Ben.
- Um guinu? - perguntou Priscilla, arregalando os olhos.
- Ben vai ficar muito espantado!
- Ento vamos espant-lo! 
Priscilla deu um de seus sorrisos encantadores.
- Acho que no posso mais consider-lo um "estranho alto e forte", mas um
mgico de contos de fadas! Se lhe trouxer um ratinho, pode transform-lo
num cavalo to puro-sangue quanto o seu?
34
Gostaria que mandasse vir para c um de meus cavalos para montar?
No havia qualquer segunda inteno nas palavras de Priscilla e a
pergunta do conde a fez corar.
No... claro que no! Estava apenas brincando!
- Mas  uma boa ideia. Vou falar com meu camareiro quando chegar.
- Pediu-lhe que viesse?
- No  justo que a bab fique cuidando de mim e no desejo cans-la.
- Vai ficar enciumada por preferir os servios de seu camareiro aos dela.
O conde riu.
Mais uma vez, como se tivesse sido chamada, a governanta apareceu e 
mandou Priscilla ir se deitar.
Em seguida, serviu ao conde uma refeio leve e ajudou-o a acomodar-se 
para dormir.
- Se precisar de qualquer coisa durante a noite, milorde,  s tocar a 
sineta que deixei ao lado de sua cama. No se acanhe de toc-la. Estou do 
outro lado do corredor e tenho sono leve.
Nem por um segundo o conde duvidou disso, uma vez que as babs precisavam
estar atentas ao menor choro de criana.
- Obrigado, bab, espero no precisar incomod-la.
- Boa noite, milorde, procure descansar bastante.
A maneira como havia feito a recomendao dava a impresso de julgar que 
o conde levasse uma vida mundana e atribulada, o que no estava muito 
longe da verdade.
Uma vez sozinho no quarto, assaltou-o novamente a lembrana de Louise, 
quase que to sorrateiramente quanto a prpria entrada dela no quarto do 
castelo de Windsor. Ele sabia que a duquesa devia estar estranhando a 
falta de resposta a seu convite.
Uma sensao de alvio o invadiu ao constatar que sua visita teria de ser 
adiada, gostasse ela ou no. Infelizmente, no havia
35
como cancel-la de vez. Louise certamente o estava aguardando para falar 
com o duque, e a duquesa no desistiria do convite to facilmente.
Parecia ver Louise aproximando-se cada vez mais de sua cama, em sua 
camisola branca, com seu sorriso sensual e seu olhar malicioso, como uma 
fera selvagem pronta para atacar.
Realmente a imagem no podia ser mais precisa, trazendo lhe  memria um
fato ocorrido muito tempo antes, quando estivera na ndia com seu
regimento, e fora caar com um jovem oficial.
Depois de caar alguns veados e vrios outros pequenos ani mais, dera-se 
conta de que no havia mais balas em sua espin garda e, contrariado, 
soubera que o oficial havia esquecido de levar mais munio.
Ordenara-lhe, pois, que voltasse ao acampamento para bus car o necessrio 
e tratara de se acomodar sob uma rvore  espera de seu regresso.
Fora ento que, instintivamente, percebera estar em perigo, Pusera-se de 
p, com a respirao suspensa. Para seu pavor, vira-se frente a frente 
com uma jovem leoa feroz e perigosa, que se aproximava lentamente.
Ficara imvel, encostado  rvore, apontando a arma descarregada em 
direo ao animal, embora soubesse que no teria chance alguma de 
sobrevivncia.
De olhos brilhantes, narinas are antes e msculos tensos, ela preparava-
se para atacar sua presa de um momento para outro, no restando outra 
alternativa ao conde a no ser rezar por um milagre.
Eis que, inesperadamente, como se a mo da Providncia tivesse 
interferido em seu favor, uma flecha certeira fora atirada por trs, 
ferindo a leoa no dorso. Ela rosnara de dor, voltara-se e embrenhara-se 
na mata.
Seu oficial correra at ele e recarregara a espingarda. Fora incrvel a 
sensao de ter escapado do perigo.
Entretanto, dizia agora a si mesmo, milagres acontecem s
36
uma vez na vida. Louise estava a sua espreita, pronta para atacar, e
desta vez no havia esperana de salvao.
Assim que amanheceu, Bates apareceu com as provises que lhe pedira.
A notcia de sua chegada fora efusivamente anunciada por Priscilla que, 
praticamente, irrompera quarto adentro.
- Como sabia... como adivinhou que amos adorar ter tanta coisa 
deliciosa?
- Que bom! Bates j chegou?
- Est descarregando os mantimentos na cozinha e a bab est protestando 
que no era necessrio, embora seu rosto esteja alegre e no tenha feito 
meno de devolver coisa alguma!
- E no  para devolver! Alm de estar me alimentando aqui, quero que 
usufruam de tudo.
-  muita bondade sua.
- Bondade foi a de vocs me receberem!
- Espero que a bab no assuma o ar de ofendida por achar que no estava
gostando de nossa comida - Priscilla sorriu.
- Acho que no h nada mais estpido do que as pessoas fingirem ser mais 
ricas do que so, e ns... ns somos muito pobres.
- Como? - perguntou o conde surpreso.
- Porque Richard deixou muitas dvidas e Elizabeth no tem fortuna de 
famlia.
Priscilla fez um gesto encantador com as mos.
-  por isso que est to eufrica de se casar com o rico sr. Charlton,
que est muito apaixonado por ela. E ela por ele, diga-se de passagem.
- Assim est melhor - aparteou o conde, com uma pontinha de sarcasmo. - 
Creio que no se casaria com ele apenas Por dinheiro caso no o amasse, 
no ?
Claro que no! Como pode pensar numa coisa dessas? a e Richard eram muito 
pobres, mas muito felizes.
37
Havia tal indignao na defesa de Priscilla que o conde sentiu-se
obrigado a desculpar-se.
- Perdoe-me. Havia me esquecido de que este  um lugar de conto de fadas 
e os personagens dessas histrias sempre se casam e vivem felizes.
Havia no tom de voz do conde um misto de ironia e amar gura, pois ele 
lembrou-se que se se casasse com Louise estava fadado a sofrer antes e 
depois do casamento. Mais uma vez ela surgiu aos seus olhos como uma 
perigosa leoa.
Percebeu ento que Priscilla o olhava interrogativamente.
- Por que fala desse jeito? - perguntou-lhe depois de um momento.
A ltima coisa que passaria pela cabea do conde era fazer confidncias a 
Priscilla.
- Talvez esteja com inveja dessa felicidade - respondeu em tom jovial.
- Est sugerindo que gostaria de se casar e ser feliz para sempre?
- Claro! No  o que todos, homens e mulheres, desejam?
- Seu sonho vai se realizar - profetizou Priscilla, esfregando uma mo na 
outra.
- O que quer dizer?
- Observava-o quando estava inconsciente e conclu que tem tudo o que uma 
mulher pode desejar num homem.
O conde arqueou as sobrancelhas, mas desistiu de fazer qual quer 
comentrio ao perceber que Priscilla falava a srio, sem qualquer 
inteno de adul-lo. O seu tom de voz era baixo mais parecia que falava 
consigo-mesma:
- No  apenas porque ... forte e bem-apessoado, mas, embora eu nem o 
conhea direito, senti que  corajoso... bom e humano.
- Como pode ter certeza?
- Posso estar enganada, mas minha intuio diz que no S uma coisa me 
pareceu errada.
- Errada?
38
- Quando estava delirante, falou muita coisa sem sentido. Entretanto,
tive a impresso de que odiava algum... ou talvez uma situao... no
sei, s sei que falava num tom de dio com um certo desgosto.
O conde estava admirado. Era impressionante que ela tivesse chegado  
perfeita concluso do que se passava com ele, atravs do pouco que 
aparentemente ouvira.
Odiava Louise, e pensar nela como esposa causava-lhe profundo desgosto.
- Sinto muito... - Priscilla balbuciou. - Fui muito impertinente em lhe 
dizer o que pensava e me... intrometer em sua privacidade. Perdoe-me.
- Ora, no h nada a perdoar - replicou o conde.
O brilho que iluminou o olhar de Priscilla tornou a expresso de seu 
rosto adorvel.
- No pode... odiar ningum, ou ser infeliz - disse ela baixinho -, pois 
isso estraga o conto de fadas. Talvez eu possa ser sua Fada Madrinha e 
afastar todo o mal que o perturba.
O conde no pde deixar de retribuir o doce sorriso que ela lhe oferecia.
Ao faz-lo uma sbita ideia apoderou-se dele.
Quem sabe Priscilla pudesse ajud-lo. Quem sabe, no. Ela realmente 
podia!
39

CAPITULO III

O conde era um homem extremamente metdico. No exrcito, quando planejava
uma campanha, era to preciso que via de regra se via alvo de 
comentrios.
- Brook nunca perde seu objetivo de vista - comentara uma ocasio um de
seus generais. - A ideia de derrota ou fracasso jamais lhe passa pela
cabea. 
O pensamento de que Priscilla podia salv-lo de Louise ocorreu-lhe como 
inspirao divina. Imediatamente ps-se ento a planejar cada mnimo 
detalhe.
O mais importante de tudo  que o duque e a duquesa de Torrington e, 
principalmente, sua filha jamais desconfiassem que pretendia assumir o 
sagrado estado do matrimnio para escapar deles.
Nada havia sido dito entre a duquesa e ele que pudesse compromet-lo, da 
no haver pressa alguma em justificar a ela a razo de no poder fazer-
lhes a visita, conforme o sugerido.
Se parecia haver uma segunda inteno no convite dela, era simplesmente 
porque ele prprio estava com a conscincia culpada.
Apavorava-o a possibilidade de que Louise, como lady Augusta, 
desconfiasse de estar grvida. Nesse caso, nem mesmo o fato de estar 
casado com outra pessoa evitaria o escndalo.
Na tentativa de acalmar-se, o conde dizia a si mesmo que se Louise 
estivesse grvida teria procurado entrar em contato com ele mais cedo. O 
mais provvel era mesmo que o sbito interesse nele se devesse  herana 
do ttulo e da fortuna.
Tinha a vaga lembrana de ter ouvido tempos atrs o comentrio
40
de que Louise estava tendo um caso com algum conhecido, que no
se lembrava quem era. A notcia devia ter se espalhado por Londres e era
essa provavelmente a razo de que, apesar de sua beleza, ainda no 
estivesse casada aos vinte e trs ou vinte e quatro anos.
Encontrando-se desesperada por um marido, que partido poderia ter-lhe
parecido melhor do que ele?
Pela primeira vez, desde que voltara de Londres, comeava a sentir que
diminua dentro dele o verdadeiro pnico em que estivera vivendo desde
ento.
O futuro parecia-lhe mais claro e promissor agora e no a terrvel 
escurido da qual por mais que tentasse no sabia como escapar.
Naquela noite, o conde permaneceu a maior parte do tempo acordado, 
refletindo sobre o que iria fazer e dizer a Priscilla.
At o fato de que ela no tinha os pais vivos parecia que lhe facilitava 
as coisas. Qualquer me exigiria um noivado de pelo menos trs meses, 
para que o casamento no parecesse muito precipitado e desse margem a 
falsas interpretaes.
Sim, pois o conde no desejava esperar nem trs semanas quanto mais trs 
meses para livrar-se de vez de Louise.
Era tambm muito oportuno que a cunhada de Priscilla fosse se casar e ela 
no tivesse para onde ir...
Adormecendo, finalmente, de pura exausto, o conde acordou na manh 
seguinte com um sorriso nos lbios. A vida lhe prometia um futuro dourado 
pelo qual lutar.
Quando Priscilla entrou no quarto um pouco mais tarde naquela manh, 
depois do conde ter se lavado, barbeado e tomado um revigorante caf da 
manh, ele a olhou de maneira diferente do que o fizera at ento.
Desde que a vira pela primeira vez, achara-a uma jovem bonita e atraente, 
divertindo-se com as coisas que falava e, principalmente, com sua 
espontaneidade.
Entendia agora que isso se devia tanto a sua inocncia, quanto
41
ao seu desconhecimento da sociedade, atributos que, alis, sempre
buscara na futura esposa.
Ao v-la entrar sorrindo no quarto, no teve dvida de que seu olhar 
transparente refletia toda sua pureza interior. Certamente ela nunca 
sequer fora beijada por um homem.
No havia comparao possvel entre Louise e ela. Sabia que Priscilla 
sempre se comportaria com o mximo decoro e que seria merecedora de todo 
o respeito que sempre pretendera dedicar  esposa.
"Talvez ela se sinta nervosa em princpio de ser a senhora de uma manso 
como Rock", pensou ele, "e, principalmente, de ter de frequentar o 
palcio de Buckingham e o castelo de Windsor. Vou orient-la, porm, 
sobre como se comportar e o que dizer e, se seguir minha orientao, no 
ter problema algum".
Curioso  que naquele momento to decisivo de sua vida vinha-lhe  mente 
como se sara bem no treinamento de recrutas, tornando-os excelentes 
soldados.
Como o admiravam, os jovens soldados faziam sempre o possvel para 
agrad-lo, e Brook nunca tivera problemas de insubordinao ou 
indisciplina.
Vivendo numa cidadezinha pacata como Little Stanton, sempre rodeada pelas 
mesmas pessoas, no restava dvida de que Priscilla se surpreendera com a 
figura do conde, e que certamente acataria docilmente seus conselhos.
A nica coisa que o perturbava era ter de se casar to depressa depois de 
haver herdado o ttulo.
Se lhe fosse dado escolher, gostaria de poder passar um ou dois anos 
acomodando-se  nova situao e a um tipo de vida completamente diferente 
da que levara at ento.
O destino, porm, apresentava sempre alguma penalidade a se pagar e, se o 
casamento com Priscilla significava livrar-se de Louise, s poderia 
louv-lo, quer acontecesse de imediato ou dentro de cinco anos.
42
Notando o ar pensativo do conde, Priscilla aproximou-se da cama.
- Dormiu bem? A bab me disse que se alimentou melhor hoje e que logo 
estar em condies de nos deixar.
- Acho que a bab est querendo livrar-se de mim logo!
- Temo que essa seja a verdade. Ela o considera uma influncia 
prejudicial para mim.
- Ora, vejam! - divertiu-se o conde.
A jovem prosseguiu no mesmo tom srio.
- Ela diz que, depois de toda fartura que nos proporcionou, ficaremos 
descontentes com o nosso dia-a-dia. Alm disso, embora ela no diga, 
creio que tambm desconfia que vou fazer comparaes entre o senhor e o 
"moreno desconhecido", quando ele chegar.
Havia tal ingenuidade nas palavras da jovem que o conde teve a certeza de 
que nem por um momento ela o imaginou como seu possvel Prncipe 
Encantado.
A situao chegava a ser at desconcertante, uma vez que ele estava 
acostumado a ser perseguido pelas mulheres onde quer que se encontrasse.
- Voc disse que apareceu um estranho muito atraente para sua cunhada - 
comentou em voz alta. - Estou surpreso que a bab no o tenha 
desestimulado.
- Ela o aprovou logo - Priscilla respondeu, sentando-se na cadeira ao 
lado da cama. - Realmente ele  o tipo de homem com quem Elizabeth devia 
casar-se.  bom e atencioso e parece achar que no existe nenhuma outra 
mulher no mundo alm dela.
- Estranho que voc mesma no tenha tentado conquist-lo
- observou o conde.
Priscilla olhou-o surpresa.
- Seria muito mesquinho de minha parte quando Elizabeth  mais velha do 
que eu e estava to infeliz com a morte de Richard.
43
Ento, como se considerasse melhor o que ele havia dito, acrescentou:
- Edward foi feito para Elizabeth, no para mim.
- Por que no? - admirou-se o conde. Priscilla pensou por um momento.
- No  muito aventureiro e  muito circunspecto. Alm disso, consigo 
adivinhar o que vai dizer antes que ele fale e sei de antemo quais so 
suas opinies antes de exterioriz-las.
- Realmente no  muito estimulante - ele concordou. Mas muitas mulheres
desejam esse tipo de segurana e estabilidade.
- Tem conhecido muitas assim?
Se o conde tivesse de ser sincero, teria de admitir que, no que lhe dizia 
respeito, as mulheres pareciam sempre preparadas para pr em jogo sua 
reputao e corriam os maiores riscos por causa dele.
Muitas chegavam ao extremo de no se importar de romper casamento e serem 
marginalizadas pela sociedade.
Dando-se conta de que Priscilla aguardava sua resposta, disse, lacnico:
- Suponho que seja isso o que queiram.
- Tenho certeza de que no est falando a verdade - retrucou, perceptiva. 
- No tenho dvidas de que leva uma vida de aventuras e agitao e  isso 
mesmo o que desejam as mulheres que o admiram.
- Voc est me bajulando... Como sabe que h mulheres que me admiram?
Priscilla soltou uma gargalhada jovial.
- Agora est sendo modesto. At a bab admite que o senhor  o "tipo do 
homem fino". Por isso  que est decidida a mand-lo de volta para casa o 
mais breve possvel.
- Ser que a bab teme que voc se apaixone por mim? ele ousou perguntar, 
curioso.
- Est morrendo de medo! - Priscilla admitiu. - A cada dia que passa,
noto que a ansiedade dela aumenta.
Ela tornou a soltar uma gargalhada encantadora e melodiosa, 
acrescentando:
- Ontem  noite, quando ela estava ajudando-me a trocar de roupa, disse: 
"No v pondo ideias malucas na cabea a respeito de milorde. Assim que 
estiver melhor, vai voltar para Rock, depois para Londres e para um tipo 
de vida que  completamente diferente do seu, e voc nunca mais voltar a 
v-lo".
O conde achou extrema graa na maneira perfeita com que Priscilla imitou 
a voz da bab.
- O que foi que voc respondeu a ela? - perguntou, rindo. Priscilla 
hesitou por um instante, fazendo-o pensar que se
recusaria a responder. Entretanto, surpreendeu-o com sua sinceridade:
- Eu disse: Bab, talvez milorde nos esquea, mas ns nunca o 
esqueceremos, depois de ter nos proporcionado tanta coisa boa e ser to 
generoso.
- Ora, agradeo muito que me considere generoso - retrucou o conde -, mas 
acho que seu julgamento pode ser precipitado, afinal apenas me viu 
inconsciente ou esticado aqui na cama, usando os pijamas de seu pai.
O lado vaidoso do conde, que todo ser humano tem, sentiu naquele momento 
um desejo de que ela pudesse v-lo imponente, em sua farda de gala.
Em seguida, ocorreu-lhe que a conversao estava tomando um rumo digno de 
uma pea teatral, faltando apenas para completar o ato que algum fizesse 
o aparte: Faa o pedido!
Ele sentia, contudo, que ainda era um pouco prematuro. Embora estivesse 
consciente de que Priscilla gostava de conversar com ele, no escondendo 
inclusive sua admirao, percebia que no significava nada de mais 
pessoal para ela, nem justificava a preocupao que a bab estava 
sentindo.
- O que vai fazer hoje? - perguntou-lhe, desviando o assunto.
45
- Vou andar a cavalo. Ah, ia esquecendo-me de lhe dizer que seu cavalo 
est bem melhor. Ben foi dar uma volta com ele hoje cedo e, apesar de 
ainda estar mancando um pouco, j anda com maior facilidade.
- Que boa notcia!
- Qual o nome dele? - Priscilla quis saber.
- Rufus - respondeu o conde. Priscilla franziu o nariz.
- Honestamente, no gosto muito. Os nossos cavalos chamam-se Mercury e 
Pegasus. Fui eu quem os batizei e achava-os os cavalos mais lindos do 
mundo at ver seu Rufus!
- Pois veja que a bab tem razo at certo ponto. Esse  o tipo de 
comparao que ela no aprovaria! No seria justo ficar insatisfeita com 
Mercury e Pegasus por ter conhecido Rufus.
- No h a menor possibilidade de acontecer isso! - Priscilla replicou 
indignada. - Admiro muito Rufus, mas amo Mercury e Pegasus, especialmente 
Mercury que  meu, e nada no mundo tomaria seu lugar no meu corao.
- Vejo que  leal - comentou o conde.
- Se amar os animais e as pessoas desinteressadamente, no me importando 
de que os outros tenham melhor do que eu,  ser leal, ento sou leal.
- O que, sem dvida,  uma qualidade louvvel. Por outro lado, muito me 
agradaria v-la montando um cavalo puro-sangue.
Passou pela cabea do conde que, se ela montava com a mesma graa com que 
caminhava, faria sucesso em qualquer de seus cavalos e seria timo t-la 
por companhia nas caadas de inverno.
Apesar de nunca ter pensado nisso antes, agora parecia-lhe imprescindvel 
que a esposa fosse uma exmia praticante da arte da equitao.
Sempre observara como as esposas dos amigos ressentiam-se
46
do fato de serem deixadas para trs quando os homens iam caar.
Mas havia muito para uma mulher se ocupar em Rock, alm de acompanh-lo a 
caadas.
O conde parecia agarrar-se a essa ideia por uma necessidade imperiosa de,
inconscientemente, garantir a si mesmo que no ia perder completamente a
independncia.
Afinal, antecipava o prazer que sentiria de falar na Cmara dos Lordes, 
de frequentar as reunies masculinas, de ser tratado com deferncia em 
seu clube.
Eram inmeras realmente as vantagens que sua nova posio lhe abria.
Uma das mais importantes era ser dono de inmeros cavalos de corrida, que 
estavam sendo treinados em Newmarket, sendo automtica, portanto, sua 
indicao para o Jockey Club.
Desde que herdara o ttulo, o futuro parecera-lhe altamente promissor,
mas Louise tivera a capacidade de empanar o brilho de sua alegria.
Felizmente agora estava conseguindo enxergar com maior clareza novamente 
e havia nele um misto de vaidade e triunfo por sentir-se apto a safar-se 
dos planos dela, fazendo-a inclusive de tola.
Antes de conhecer Priscilla, corria realmente um srio e assustador 
perigo. Ela era merecedora de todos os louvores por ser uma verdadeira 
fada, capaz de transformar o seu destino.
Depois de examin-lo, o mdico disse ao conde que poderia levantar-se 
dentro de alguns dias, mas teria de permanecer no quarto.
- Uma clavcula quebrada leva tempo para ser recuperada, rciilorde, e no 
seria prudente correr qualquer risco de uma recada, especialmente 
considerando-se tudo o que o senhor tem a fazer pela frente.
- Tudo o que tenho a fazer? - repetiu o conde.
47
-  isso mesmo... - comeou o mdico a dizer, mas parou e olhou-o 
embaraado. - Perdoe-me, mas no  da minha conta.
- Mas  da minha! - replicou o conde. - Agradeceria muito se conclusse o 
que comeou a dizer.
- No  nada to importante assim...
- Pressinto que  - interrompeu-o o conde -, e gostaria muito de saber do 
que se trata.
- Pois bem, milorde, s espero que no v me considerar muito 
impertinente.  mais do que sabido nesta regio que a lavoura em Rock
Estate est muito atrasada e ultrapassada. Estamos, portanto, todos
esperanosos de que, sendo jovem e tendo uma reputao de empreendedor,
possa fazer grandes modificaes no lugar.
O conde estava surpreso.
Sempre considerara Rock Estate como um verdadeiro modelo. Possivelmente 
como estivera na ndia nos ltimos anos, no tomara conhecimento das 
falhas existentes.
Seu silncio fez com que o mdico o olhasse apreensivo.
- Perdoe-me, milorde, mas o senhor pediu que eu falasse francamente.
- Fico contente que o tenha feito - respondeu o conde. Vou procurar 
verificar tudo, assim que tenha tempo. Prometo-lhe que novos mtodos e
novas ideias sero aplicadas onde for possvel, em Rock.
- Sabia que podia contar com sua compreenso, milorde exultou o mdico. -
Vai enfrentar muita resistncia para implantar mudanas e ter de lutar 
muito. Mas no tenho dvidas de que valer a pena.
- Tenho certeza disso - concordou o conde.
To logo o mdico se foi, a governanta insistiu para que ele dormisse um 
pouco, por isso somente aps ter terminado o ch da tarde  que viu 
Priscilla novamente.
Ela contou-lhe que fora cavalgar e que, depois do que acontecera ao 
conde, fora especialmente cuidadosa.
48
Sei que os campos so muito perigosos, mas meu pai no
tinha condies econmicas para arcar com mtodos modernos para trat-los 
e menos ainda para empregar homens para esse tipo de servio.
- Tambm vou ser mais cuidadoso quando voltar a cavalgar o conde ponderou 
mais para si mesmo.
Priscilla sorriu e ele logo desconfiou do que lhe passava pela cabea.
- A bab andou lhe dando conselhos novamente, no ? Ela riu.
- Disse-me que aproveitasse enquanto posso, pois a semana que vem teria 
de me contentar com a minha vida de antes, e, principalmente, com as 
nossas pobres refeies.
- O que voc comeu hoje?
- Carneiro assado e torta de framboesa com creme.
- Eu tambm. Estava tudo uma delcia!
- Se estava! Deve ser uma maravilha poder comer assim todos os dias e 
achar a coisa mais natural...
O conde ficou tentado a lhe dizer que, no futuro prximo, ela teria 
sempre esses prazeres, mas resolveu calar-se para no assust-la e, 
principalmente, para no intimid-la enquanto estivesse em sua casa.
Era muito estranha a sensao de estar com uma mulher que nada fizesse 
para provoc-lo.
Qualquer outra em seu lugar estaria tentando bajular o seu ego e usando
dos mais estranhos pretextos para toc-lo.
Priscilla, pelo contrrio, conversava com a maior espontaneidade, 
encantando os ouvidos do conde com sua voz serena e Melodiosa. O assunto 
flua fcil entre os dois e, mais uma vez, foi necessria a interferncia 
da bab para que ela fosse se recolher.
No dia seguinte, Priscilla entrou quase danando no quarto, agitando uma 
carta na mo.
49
- Elizabeth ficou noiva! - contou animada. - Vo se casar dentro de trs 
semanas.
- Voc parece contente - observou o conde.
- E estou. Elizabeth est muito feliz. Diz que Edward Charlton  muito
bom. Ela recebeu como presente de noivado um conjunto de anel e broche de
safiras lindssimo!
- E voc, vai assistir ao casamento? Priscilla no escondeu seu
desapontamento.
- Infelizmente, no. Eles vo se casar muito discretamente, na igreja da
vila de Edward.
Visivelmente triste, deu um pequeno suspiro e prosseguiu:
- Tinha esperana de que se casassem aqui, mas depois compreendi que ela 
no tem os mesmos laos que eu com Little Stanton, portanto  natural que 
se casem na igreja de Edward.
- De onde  a famlia dela?
- Richard conheceu Elizabeth na ndia. O pai dela  juiz em Calcut.
No podia haver melhor informao do que aquela. Agora ele estava 
tranquilo de que no haveria qualquer interferncia ou protesto quando 
dissesse a Priscilla que pretendia casar-se com ela e lev-la para Rock 
assim que melhorasse.
Quando o mdico foi v-lo, no dia seguinte, o conde pressionou-o para lhe 
dizer quando teria alta.
- Entendo que esteja ficando enfadado, milorde - disse-lhe o dr. Jenkins. 
- Bem, no o culpo. Imagino que esteja ansioso para voltar para sua casa 
que, a bem dizer,  como um brinquedo novo.
Ele riu da prpria piada e o conde insistiu:
- Ento quando posso partir?
- Poderia ir amanh, mas ser uma viagem muito sacrificada, mesmo na 
melhor carruagem.  melhor que espere mais uns dois ou trs dias e, ainda 
assim, ter de ser muito cuidadoso
50
at que sua clavcula esteja completamente ligada. Se,
or uma fatalidade, houver um desligamento do osso novamente ento ver o
que vai demorar para se levantar novamente.
O dr. Jenkins era um homem srio e estava sendo prudente,
convencendo o conde com suas palavras a esperar mais trs
dias antes de voltar para casa.
Decidiu ele ento que o casamento devia realizar-se antes de partir, 
devendo, pois, comunicar suas intenes a Priscilla imediatamente.
A primeira providncia que tomou foi enviar, atravs de um criado, um 
bilhete a seu procurador para obter a licena.
Parecia-lhe, mais do que nunca, ser fundamental que seu casamento fosse 
realizado no mais absoluto sigilo e sabia que podia contar com a 
confiana e discrio de todos os seus colaboradores.
No momento em que a bab entrou no quarto, o conde aproveitou para 
perguntar-lhe se Priscilla no poderia tomar ch com ele naquela tarde. A 
ocasio seria perfeita para fazer-lhe o pedido.
A bab, porm, alegou que a sugesto contrariava sua concepo de decoro 
e, como sempre, miss Priscilla tomaria seu ch sozinha.
-  bom que v se acostumando - argumentou. - com o casamento de mrs. 
Cranford,  o que sempre vai acontecer a ela daqui para frente.
- Esse casamento teve a sua aprovao, no, bab? - o conde sondou-a.
Penso que mrs. Cranford e mr. Charlton foram feitos um Para o outro - ela 
retrucou.
E o que ser de miss Priscilla? Ela j tem idade suficiente Para se 
casar.
A bab apertou os lbios por um instante e disse, em tom spero:
51
-  bom, milorde, que no v pondo ideias na cabea A miss Priscilla.
Embora ela tenha um tipo de vida inadequado para uma jovem de sua idade,
est muito feliz assim.
- E voc nunca tentou fazer nada para ajud-la a ver ou trs pessoas, ter 
mais convivncia social?
- O que poderia fazer? Mr. Richard morreu h pouco mais de um ano e h
muito pouca gente jovem na vizinhana.
A bab fez um gesto eloquente, que o conde entendeu perfeitamente. Como
eram pobres e sem importncia, ningum si preocupava com elas, por mais
bonita que Priscilla fosse.
- Sempre acreditei - prosseguiu ela - que chega o momento para tudo e
Deus vai se incumbir de arrumar-lhe uma boa sorte. S lhe peo, milorde,
que procure no perturb-la. At a sua chegada, ela nunca parecia ter-se
dado conta de que era to sozinha.
- E est se dando agora?
- Espero que no, milorde... espero sinceramente que no
- disse a governanta em voz baixa.
O conde no conteve um sorriso quando ela saiu. Pelo que lhe dissera,
Priscilla j estava interessada nele, o que tornaria mais fcil a
aceitao de sua proposta.
Essa perspectiva fazia com que exultasse. Quanto mais observava
Priscilla, mais acreditava que no poderia haver melhor soluo para seu
problema.
Ela era de fato encantadora. Uma vez vestida com as roupas da moda,
confeccionadas pelos melhores costureiros, estaria apta a frequentar o
palcio de Buckingham, entre as mais finas damas.
Deitado em sua cama, o conde continuou seus devaneios, pintando das mais
belas cores seu futuro com Priscilla.
Decidiu de antemo que no levaria a esposa muito cedo ao palcio de
Buckingham ou ao castelo de Windsor para evita um encontro com Louise.
Estava convicto, porm, de que, quando a rainha a conhecesse
52
ambas se dariam muito bem, pois eram parecidas na aparnciae  no
comportamento.
Ele havia ficado sensibilizado pela graa, modstia e recato de Victoria,
ao ser proclamada rainha da Inglaterra.
De fato, na ocasio, Greville, o historiador, dissera-lhe:
No houve nunca nada semelhante  primeira impresso
que ela causou, nem ao coro de elogios que arrancou com seu comportamento 
e modos.
Conhecendo Greville h anos como crtico mordaz da sociedade em geral, o 
comentrio sobre a rainha havia sido verdadeiramente surpreendente.
Interessante havia sido o prazer que sentira de lhe contar sobre a 
coroao de Victoria, uma vez que, na ocasio, o conde estivera no
exterior.
- As atenes de todos estavam completamente voltadas para ela devido a 
sua juventude, inexperincia e desconhecimento do mundo - conclura 
Greville.
As palavras do historiador voltavam-lhe  mente agora e podiam 
perfeitamente ser ditas a respeito da prpria Priscilla.
Jovem, inexperiente e desconhecedora do mundo, certamente despertaria
muita curiosidade como sua esposa.
Uma vez mais, veio-lhe  memria a figura ameaadora de Louise, pois era 
impossvel deixar de fazer uma comparao entre a candura de uma e a 
agressividade da outra.
- Como vai ficar desapontada! - disse a si mesmo, sentindo-se triunfante, 
depois de ter-se sentido derrotado.
Entretanto, parecia-lhe mais do que justo que desse uma lio naquela
criatura diablica.
O pensamento de que o duque, porm, poderia fazer de sua vida na corte um
inferno, caso suspeitasse que deliberadamente enganara a filha, deu ao
conde um senso de urgncia, ansiando por ver-se casado com Priscilla.
Eis que a jovem, com uma leve batida, entra em seu quarto, trazendo
cuidadosamente um pequeno vaso de flores nas mos.
53
- Estou lhe trazendo algo especial, os primeiros lrios-do-vale, sinta
que perfume delicioso!
Ela aproximou-se da cama para que o conde pudesse senti o aroma das
flores.
- Obrigado - disse ele, comovido. - Creio que, se tivesse de escolher uma
flor para represent-la, escolheria, sem dvida, um lrio, um lrio-do-
vale.
O conde intimamente esperava que ela corasse, ou se ms trasse tmida,
mas Priscilla, pelo contrrio, aceitou a comparao com a maior
naturalidade:
- com que ento tambm gosta de comparar as flores con as pessoas! Sempre 
digo que Elizabeth parece um boto rosa, lindo e delicado. A bab, apesar 
de ficar zangada quandi digo isso,  a prpria boca-de-leo, meio austera 
e assustadora at que se note que as abelhas nunca abandonam essas flores
por terem tanto mel.
Ela riu e sentou-se na cadeira ao lado da cama.
- Vejamos, com que flor o senhor se parece?
- No estou interessado em mim, Priscilla - replicou o conde. - Quero lhe
falar.
- Nossa, parece to srio!
- E estou. D-me sua mo.
Como uma criana obediente, Priscilla estendeu, sem o menor embarao, a
mo ao conde que a tomou entre as suas.
- No nos conhecemos h muito tempo, Priscilla - disse lhe solene -, mas
me sentiria muito honrado se aceitasse ser minha esposa. Farei o possvel
para torn-la feliz.
Depois de proferir as palavras que havia ensaiado repetidas vezes depois
do almoo, viu que Priscilla estava esttica, com a fisionomia entre
surpresa e incrdula.
Passado um minuto, ela perguntou:
- Est... brincando?
- No, claro que no - respondeu o conde. - Nunca falei
54
to srio em minha vida. Quero que seja minha esposa, Priscilla
- Por qu?
Era o tipo de pergunta que ele jamais podia esperar e foi sua vez de
ficar surpreso.
- Me faria muito feliz - disse, finalmente, sorrindo. - E j prometi que
vou faz-la feliz.
- Dizer que a bab pensou que quando se fosse daqui nunca mais o
veramos!
- No estou muito interessado no que a bab pensa ou no pensa -
impacientou-se ele. - Estou lhe propondo que se case comigo, Priscilla, e
tenho a certeza de que no vai se arrepender.
Ainda assim, ela no respondeu. Ele prosseguiu, tentando convenc-la:
- Rock  uma casa muito bonita, cheia de tesouros que vo deslumbr-la e, 
apesar de que naturalmente h lugar para Mercury e Pegasus em meu 
estbulo, tenho certeza de que vai adorar montar cavalos to bons quanto 
Rufus.
A atitude de Priscilla desconcertou-o. Imaginava que ela fosse aceitar a 
sua proposta de imediato. Era estranho que praticamente tivesse de tentar 
persuadi-la com seus bens materiais, quando estava certo da atrao que 
exercia sobre ela.
Mesmo na poca em que no era nada alm de um simples oficial, tinha a 
convico de que a mulher que quisesse desposar iria aceit-lo com a
maior alegria. Era surpreendente, pois, que aquela jovem, vivendo numa
pequena casa, de uma obscura e isolada vila, o deixasse na expectativa de
uma resposta.
Mais surpreendente ainda era a mo dela na sua, que nem por um segundo
estremecera ou tentara desvencilhar-se daquele contato. Apenas com os
olhos Priscilla demonstrava uma certa inquietao.
- O que a est preocupando? - o conde indagou, com um
55
ligeiro sorriso nos lbios, o mesmo que quase todas as mulheres
achavam irresistvel.
- Estou tentando entender o porqu de me desejar para esposa - confessou
Priscilla, com simplicidade. - Tenho conscincia de sua importncia, do
fato de estar sempre com a rainha e o prncipe consorte e sei que ficaria
deslocada no palcio de Buckingham, e que acabaria se envergonhando de
mim.
- Certamente sentir um certo constrangimento, no incio
- admitiu o conde -, mas estarei sempre perto de voc para dizer-lhe o
que deve fazer. Alm disso, tenho certeza de que quando conhecer a rainha
ver que ela no tem nada de assustador, muito pelo contrrio.  uma
mulher extraordinria que vive muito feliz com seu marido, como se pode
observar no s pela maneira como o olha, como tambm pelas palavras 
elogiosas que diz a respeito dele.
O conde tinha nos ouvidos as palavras da rainha sobre o prncipe durante 
uma das raras conversas mais ntimas que haviam tido:
"A posio de Sua Alteza Real no  nada fcil, mas ele e to maravilhoso 
que sei que todos faro o possvel para facilitar as coisas para ele".
O conde assentira com a cabea, continuando a admirar a rainha, em 
silncio. Ocorrera-lhe, entretanto, que no invejava nada a posio de 
prncipe consorte. Nada como ser o senhor de seu prprio castelo.
Seus olhos fixaram-se no rosto srio de Priscilla, com uma certa 
impacincia.
- Sabe o que vamos fazer? - disse, apertando ligeiramente os dedos dela
entre os seus. - Vamos nos casar depois de amanh, assim posso lev-la
com a bab para Rock comigo. Acho que seria bom se voc pudesse continuar
cuidando de mim.
Houve uma pequena pausa e Priscilla perguntou, vacilante:
- Depois... de amanh?
- Para que esperar? - argumentou o conde. - No quero
56
deix-la sozinha e, como j disse, seria bom poder contar com sua ajuda
para melhorar logo de minha sade. 
Ser que daria certo? Naturalmente,  preciso que tenha
muito cuidado... - ponderou a jovem, num outro tom de voz.
Para surpresa do conde, Priscilla levantou-se, desprendendo sua mo das 
dele e caminhou at a janela, ficando na mesma posio em que a vira pela 
primeira vez quando recobrara a conscincia depois da queda do cavalo.
Ele a olhava a um s tempo intrigado e fascinado com seu comportamento.
Estava to convicto de que ela se sentiria lisonjeada com a proposta e
no hesitaria nem por um segundo em aceit-la! Alm do mais, sendo uma
mulher de poucos recursos e praticamente no tendo parente algum, era
quase inconcebvel que tivesse de pensar duas vezes para se tornar
condessa de Rockbrook.
Priscilla estava com o rosto voltado contra a luz e o sol formava uma 
aurola dourada sobre sua cabea.
Enternecido diante daquela figura delicada e incrivelmente forte que ela 
estava se revelando, o conde concluiu que cabia a ele tirar-lhe qualquer 
dvida que ainda tivesse:
- Venha c, Priscilla. Eu a quero muito!
- Estou... pensando.
- Em voc, ou em mim?
- Em ambos.
- Oua, querida, quero-a para minha esposa e no posso acreditar que v 
recusar meu pedido.
Priscilla voltou-se vagarosamente.
Afastou-se da janela e, de repente, como se resolvesse suas dvidas, 
abriu um sorriso que iluminou suas feies e caminhou at ele.
- Acho que... vai ser bom  me casar com voc, mas tem Certeza de que 
isso mesmo que quer?
57
- Claro que tenho - assegurou-lhe o conde. - De fato Priscilla,  a
primeira vez que peo algum em casamento.
- No podia ser diferente, caso contrrio seria casado e no estaria aqui
me pedindo! - retrucou ela, numa espontaneidade quase infantil.
O conde estendeu o brao e pegou-lhe novamente a mo.
- Sei exatamente como se sente - disse-lhe num tom cari nhoso. -  quase
como dar um pulo no escuro, no ? Mas estarei l para segur-la.
Priscilla prendeu a respirao por um segundo. Parecia que estava a ponto
de dizer algo muito srio. Entretanto, com a voz cheia de riso,
argumentou:
-  melhor que espere estar completamente recuperado de sua clavcula. No 
momento no est apto a segurar nem uma bola com a luz do dia!
O conde no pde deixar de rir.
Definitivamente, jamais pensara que sua proposta de casa mento fosse 
aceita daquele jeito.
58

CAPTULO IV

Prscilla saiu do quarto do conde, desceu rapidamente as escadas e foi
direto para o estbulo, onde estava preso Jason, seu co.
Ao ouvir os passos da dona, o animal se ps a latir e esfregar com as 
patas o porto que o separava dela, pulando sobre Priscilla assim que 
esta abriu a porta, numa indisfarvel alegria.
Ela abaixou-se para afagar o animal e Ben veio ao encontro dela, dizendo:
- At parece que faz um ms que est preso a e no apenas uma hora!
- Ele detesta ficar preso no estbulo, Ben, voc sabe disso. Mas o que se 
h de fazer, a bab no quer que ele perturbe o nosso paciente...
Sem esperar pela resposta de Ben, Priscilla atravessou o pequeno pasto e 
caminhou em direo ao bosque, s parando quando se encontrou sob as 
rvores, junto a um tronco cado no qual se sentou. Jason imediatamente 
esticou-se aos seus ps, numa atitude de expectativa. "
Priscilla passou a mo pela cabea de seu fiel companheiro, perguntando-
lhe com ar pensativo:
- Que devo fazer, Jason? Fico feliz que ele tenha me pedido em casamento, 
mas tenho uma sensao estranha, que no consigo explicar a mim mesma, de
que ele... de que ele... no me ama - admitiu, relutante.
Habituado aos desabafos da dona, Jason levantou a cabea, olhando-a com 
olhos brilhantes, e sacudiu o rabo, como se estivesse entendendo.
- Tenho certeza de que  amor o que sinto por ele - a
59
jovem continuou, argumentando consigo mesma. - Ele  to bonito, to
generoso,  exatamente o tipo do homem com que sempre sonhei. S tenho 
vontade de estar ao lado dele, de falar com ele... e quando ele sorri 
para mim... ah, sinto meu corao bater descompassado dentro do peito.
Depois de uma pequena pausa, ela disse com toda a emoo:
- Mas eu quero amor, Jason, muito amor!
Jason soltou um estranho grunhido, como se tentasse responder.
Num movimento impulsivo, Priscilla ajoelhou-se ao lado dele, passando o 
brao por seu pescoo, sem se importar com as folhas secas e os pequenos 
pedregulhos que lhe machucavam os joelhos.
- Tenho medo, Jason - disse num fio de voz -, tenho medo de no conseguir 
faz-lo feliz e, mais ainda, de... perd-lo.
O co lambeu-lhe o rosto, procurando instintivamente confortar a dona, 
saindo  busca de coelhos sob as folhas secas to logo ela o soltou.
Priscilla voltou a sentar-se, pensativa, no tronco, sem enxergar o 
verdadeiro tapete de flores azuis que se estendia  sua frente, nem o 
dourado das rvores ao cair do sol.
Diante de seus olhos tinha apenas o bonito semblante do conde, e seus 
ouvidos pareciam constantemente ouvir, como num refro, a voz dele 
dizendo:
- Oua, querida, quero-a para minha esposa...
Nunca sonhara com esse pedido e, em vez de estar se sentindo nas nuvens 
de tanta alegria, inexplicavelmente sentia que faltava alguma coisa.
- Ele  bem mais velho e experiente do que os outros homens que 
conheci... e to diferente de Edward Charlton! ponderou.
Na verdade, muito jovem, inexperiente e vivendo praticamente isolada, 
Priscilla no conhecia outros jovens de sua idade com quem pudesse fazer 
comparaes e tirar concluses a respeito dos prprios sentimentos.
60
Intuitivamente, baseava-se no relacionamento da cunhada e do noivo. Muito 
antes de que o amor dos dois fosse publicamente declarado, ela j havia 
percebido, pela maneira como se olhavam e pelas vibraes que emanavam 
dos dois, que estavam apaixonados.
Sabia reconhecer o amor e, embora o conde a olhasse com ternura e o 
contato das mos dele nas suas lhe transmitisse confiana e segurana, 
era necessrio algo mais para que pudesse ser feliz e pudesse faz-lo 
feliz. J havia, porm, concordado em se casar com ele.
- Vou ajud-lo... Vou cuidar dele... - disse a si mesma, procurando
encontrar uma razo alm do amor para que o casamento pudesse dar certo.
No fundo de seu corao, entretanto, algo lhe dizia que no bastava 
apenas isso. Queria mais, muito mais do homem a quem amava. E tinha muito 
mais para dar.
A bab trocou as faixas em volta do ombro do conde e deulhe uma tipia
limpa para apoiar o brao esquerdo.
Receando por antecipao a dor que iria sentir, latente sempre que se
mexia, ele no ousou proferir uma palavra sequer.
Para sua surpresa, porm, desta vez a dor no aconteceu, o que lhe deu
novo nimo, pois era sinal evidente de que logo estaria recuperado e em
p.
Terminada a tarefa, a bab ajeitou as cobertas e pegou as faixas usadas.
Observando-a com um pouco mais de ateno, o conde notou que seu 
semblante estava carregado, parecendo contrariada.
- O que h, bab? - perguntou, com um meio sorriso.
- O que andou dizendo a miss Priscilla, milorde, que a perturbou? - 
perguntou ela por sua vez, indo direto ao assunto que a aborrecia.
- Ela lhe pareceu perturbada? - estranhou ele.
Saiu para uma de suas caminhadas - a governanta retrucou
61
- o que significa que alguma coisa no est certa, que precisa ficar
sozinha para pensar. Eu no entendo. Havia acabado de chegar do bosque!
O sorriso do conde alargou-se diante do tom quase agressivo da bab.
- Talvez miss Priscilla esteja pensando a respeito de uma proposta que 
acabei de lhe fazer.
- Que proposta, milorde? - Ela o olhou desconfiada.
- Pedi que se case comigo depois de amanh - explicou ele, na maior 
tranquilidade.
A governanta se mostrou abismada por um momento, depois uma expresso de 
alvio apoderou-se de seus olhos.
- Est falando a srio, milorde?
- Claro que estou, bab, e espero faz-la muito feliz.
- V-la feliz  o que mais quero, milorde, mas por que tanta pressa?
- Tenho certeza, bab, de que melhor do que ningum vai compreender a 
razo. No posso permanecer aqui com miss Priscilla desacompanhado; 
desejo muito t-la logo comigo em Rock, e l tambm no podemos estar
sozinhos, ento o melhor  realizar imediatamente o casamento.
A bab guardou silncio por um momento, como que avaliando as razes 
expostas pelo conde.
- Vai dar o que falar, milorde - argumentou, ento.
- Talvez, mas o que importa isso?
O conde percebeu que a governanta hesitava entre a ideia de um casamento 
convencional e a alegria de ver sua pupila tornar-se condessa, 
imediatamente.
- Acho que milorde sabe o que est fazendo - capitulou -, e se miss 
Priscilla estiver satisfeita assim estou tambm.
-  o que imaginei.
Quando a bab saiu do quarto, o conde recostou-se no travesseiro, 
contente de que tudo estivesse saindo de acordo com o planejado. 
Priscilla o salvaria de um perigo to iminente quanto o que vivera na 
ndia, ou talvez pior, pois um podia
62
significar a morte, enquanto o outro a morte lenta, em plena vida.
Enquanto no estivessem casados, porm, e Louise no tivesse mais a menor 
chance de agarr-lo, no conseguiria sentir-se completamente a salvo.
- Vou dar a Priscilla tudo o que ela desejar neste mundo
- disse a si mesmo.
A cabea do conde estava tomada de projetos para o futuro e ele se sentia 
eufrico como uma criana em vias de ganhar um jogo difcil. Numa 
necessidade de compensar Priscilla pelo bem que estava lhe fazendo, 
resolveu que, no dia seguinte, quando mr. Anstruther o visitasse, pediria 
a ele para escrever ao melhor e mais fino costureiro de Londres, 
encomendando-lhe as mais recentes criaes e os mais belos trajes para 
compor o enxoval de sua noiva.
Talvez demorasse um pouco, mas o enxoval de Priscilla seria digno de uma 
princesa, uma forma de expressar toda sua gratido.
A pedido do conde, mr. Anstruther j havia tomado outra providncia. 
Depois de fazer vrios rascunhos, finalmente elaborou uma carta a ser 
enviada  duquesa de Torrington, cujo teor satisfez o conde:
"Sua Alteza, duquesa de Torrington,
Cumpre-me inform-la de que com profundo pesar o duque de Rockbrook no 
pode aceitar o gentil convite de V. A. para comparecer ao castelo de 
Torrington.
Infelizmente, Sua Excelncia sofreu ferimentos durante uma queda de 
cavalo e, embora no sejam graves, est sob controle mdico e proibido de 
viajar.
Sua Excelncia, o duque, incumbiu-me de apresentar suas desculpas a V. 
Alteza por no ter respondido mais cedo ao seu convite.
Respeitosamente, J. B. Anstruther"
63
O contedo da carta pareceu ao conde adequado por justific-lo perante a 
duquesa, sem envolv-lo num compromisso futuro.
Se por um lado conseguiu tirar os Torrington da cabea, o mesmo no 
aconteceu com a imagem de Louise, que continuava a assalt-lo.
Talvez devido ao seu estado de fraqueza fsica, ela continuava a 
representar uma ameaa, e ele estremecia s de pensar em ser levado a uma 
situao que absolutamente no desejava.
- Depois que estiver casado, no haver nada que ela possa fazer - 
repetia a si mesmo o tempo todo.
Uma vontade louca de rever Priscilla apoderou-se dele. Desejou que ela 
regressasse logo do bosque.
Teve, porm, de aguardar um bom tempo antes de ouvir os passos leves e 
ligeiros da moa, subindo as escadas.
Ela deu uma pequena batida na porta e entrou. O dia chegava ao fim. Os 
ltimos raios de sol mergulhavam no horizonte. O conde, entretanto, teve 
a impresso de que o quarto se iluminou  chegada da jovem, com seus 
cabelos muito loiros e um sorriso luminoso.
Priscilla no estava sozinha, porm, Jason, seu fiel companheiro, a 
seguia.
- Quem ? - o conde perguntou surpreso.
- Queria lhe perguntar se no se importa que ele fique solto. Odeia ficar 
trancado no estbulo.
- Esteve preso por minha causa? Priscilla sacudiu a cabea, 
afirmativamente.
- Quando fica excitado, ele late um pouco e a bab no queria que o 
perturbasse.
- Diga a ela que no se preocupe mais. Estou quase bom. Qual  o nome 
dele?
- Jason.
O conde levantou as sobrancelhas.
64
- Dei esse nome a ele porque est sempre procurando alguma coisa - 
Priscilla esclareceu.
- Ah, por causa do Velo Dourado! - exclamou o conde.
- Exatamente - concordou Priscilla, sentando-se na cadeira ao lado da 
cama e acrescentando, depois de uma pausa: De certa forma, acho que todos 
ns estamos...
O conde acariciou as orelhas do co e olhou-a por um longo momento, 
perguntando-lhe com voz suave:
- O que voc procura?
No restava dvida de que Priscilla tinha alguma coisa em mente ao fazer 
a afirmao. O conde no esperava, entretanto, que ela corasse tanto e 
desviasse seus olhos dos dele, numa evidente mostra de timidez.
Ela pareceu-lhe adorvel. No desejando, porm, responder  pergunta, 
ps-se de p e disse:
- Est to escuro... No sei por que a bab ainda no lhe trouxe o 
candelabro. Vou providenciar um e acender as velas.
- No h pressa - replicou o conde. - Estou esperando a resposta  minha 
pergunta.
- Desculpe-me, nem me lembro mais qual foi...
- No  verdade. Voc disse que todos esto  procura de alguma coisa e 
eu perguntei o que voc desejava encontrar.
- Bem, imagino que todos busquem a felicidade - Priscilla disse num fio 
de voz.
O conde entendeu que aquela era apenas meia resposta e que a palavra que 
a timidez no a deixava pronunciar era "amor".
Ocorreu-lhe ento que, embora tivesse dito a ela que a queria e que 
precisava dela, no havia mencionado que a amava, o que toda mulher sem
dvida desejava ouvir do homem que a pedia em casamento.
De nada adiantaria, porm, dizer a ela "Eu a amo". com seu sexto sentido, 
Priscilla saberia que no se tratava do amor que buscava, um amor 
idealizado, sublime, muito mais prximo
65
das histrias de contos de fadas do que da realidade vivida pelos seres 
humanos.
"Posso respeit-la e proteg-la, posso dar-lhe todo tipo de jias e 
vestidos que quiser ter, posso dar-lhe uma posio social invejvel, mas 
ser o bastante para satisfaz-la? "
Mas o que ser o "amor", pensou com um certo cinismo.
Eram tantos os aspectos do amor, das fantasias erticas, que povoavam a 
cabea das pessoas,  paixo obsessiva que fazia uma dama como Louise 
sair pelos corredores do castelo de Windsor  procura da cama de um 
nobre. O amor idealizado por Priscilla existia provavelmente s em sua 
cabecinha romntica.
"No posso desiludi-la", disse a si mesmo.
Sabia, porm, que mais cedo ou mais tarde ela acabaria se decepcionando e 
sentiu uma revolta ntima diante dessa ideia, se perguntando se no teria 
sido melhor conhecer uma jovem estpida e ignorante que ficaria feliz com 
o simples fato de se casar com um nobre e ascender socialmente.
Tinha certeza de que posio social era o que menos estava interessando a 
Priscilla, e que se o aceitara era porque sentia-se atrada por ele.
Falar de amor naquele momento, porm, era precipitado, por isso achou 
mais prudente acatar a sugesto dela.
- Voc tem razo, Priscilla, est ficando realmente escuro. Pea a Bates
para trazer o candelabro.  melhor evitar que a bab fique subindo e
descendo escadas.
- Se no encontrar Bates, eu mesma trarei - ela prontificou-se.
Rapidamente, ela se dirigiu  porta e Jason, que se deixara ficar em 
estado de xtase ao lado do conde enquanto ele o afagava, levantou-se 
imediatamente para segui-la.
O conde voltou a ajeitar-se na cama e tratou de tranquilizar-se com 
relao a Priscilla, afirmando a si mesmo que ela era jovem e facilmente 
se adaptaria  nova situao, tendo tudo para ser feliz.
66
pela primeira vez em sua vida, ento, ocorreu-lhe que jamais amara 
verdadeiramente algum.
Flertar muito, tivera vrios casos e chegara a vibrar com muitas 
mulheres. Nunca, porm, sofrera com o fim de uma ligao amorosa, ou 
quando tivera de se afastar forosamente de uma mulher por imposio de 
sua vida militar.
Voltando o pensamento a Priscilla, procurou se tranquilizar pensando que 
carregava consigo o compromisso de tentar faz-la sempre muito feliz. 
Mas, no fundo, ainda, o aborrecia ser levado a um casamento apressado 
quando havia tanto a usufruir de sua herana.
A lembrana das palavras do mdico, de que teria muito a melhorar em suas 
propriedades, amenizou suas ltimas dvidas, pois, tendo vivido sempre no 
campo, talvez Priscilla apreciasse incumbir-se de certas 
responsabilidades, podendo ele dedicar-se a outros assuntos, entre os 
quais a poltica.
Uma doce sonolncia foi suavizando aos poucos as preocupaes que 
dominavam a mente do conde, e ele filosofava sobre as diferentes formas 
de buscar o amor, segundo a personalidade de cada um, quando adormeceu.
Vestir a sobrecasaca no foi to difcil quanto ele havia imaginado. Mais 
estranha era a sensao de estar se vestindo para seu casamento, sem o 
luxo e a pompa que sua nova posio permitiria.
Bates e a bab seriam as nicas testemunhas e no tivera grande 
dificuldade em conseguir de ambos, bem como do vigrio, segredo a
respeito do acontecimento.
- O senhor compreende, no ? - dissera ao ltimo. - A Srta. Cranford no 
tem parente algum e submet-la a uma grande festa,  qual compareceriam
apenas meus parentes e amigos, a intimidaria muito.
Naturalmente que compreendo, milorde - concordara
O vigrio.
Alm disso - justificara-se o conde -, tenho certeza de
67
que, se no fosse uma cerimnia simples, o dr. Jenkins no consentiria
que o casamento fosse realizado to cedo. Como pretendo voltar a Rock
House, levando comigo a srta. Cranfonj e sua governanta, julguei que o
melhor seria fazermos um casa mento simples aqui em Little Stanton, e dar
as devidas explicaes depois.
O vigrio no colocou nenhum obstculo.
- Milorde est perfeitamente certo. Em seu estado de convalescena no
seria nada recomendvel um casamento com  grande aparato.
Sem se conter, Bates exteriorizara o pensamento do prprio amo:
- Vo ficar surpresos de v-lo chegar em casa com uma esposa, milorde, e
certamente vo esperar que, quando estiver restabelecido, haja a devida
comemorao.
- Como assim, festa com fogos de artifcio e tudo mais? - indagou o
conde, com a respirao suspensa.
- Exatamente, milorde! - Bates exultou. - Caso contrrio ficariam muito
decepcionados, pois se acham no direito de participar do acontecimento.
O conde riu.
- Ento no poderemos decepcion-los, Bates, mas deix que eu me recupere
completamente, est bem?
- Sem dvida, milorde - Bates concordou. - Eu melhor do que ningum sei 
disso. O mdico me incumbiu de cuidar do senhor.
-  melhor que a bab no saiba disso - o conde disse rindo. - Tenho
certeza de que ele fez a mesma recomendao  a ela.
- Espero que no, milorde. Tenho a impresso de que ela vai querer
controlar todos os seus passos.
-  bom que eu melhore logo, ento! - retrucou o conde com ar
espirituoso.
Chegava assim o decisivo momento de sua vida.
68
No dia anterior, havia caminhado um pouco pelo quarto e agora descia
devagar e cautelosamente as escadas.
Embora a igreja fosse prxima, uma carruagem o aguardava para lev-lo at
l.
Ao chegar ao vestbulo, Bates ofereceu-lhe uma taa de champanhe. 
Agradecido, ele pensava que precisava mesmo de um estimulante  sua 
coragem, quando percebeu que Priscilla descia as escadas.
Pela primeira vez, ele a via em trajes formais e achou-a encantadora.
Embora no houvesse tempo suficiente para encomendar um vestido em 
Londres, a bab insistira em comprar uma roupa nova e pedira ao conde uma 
carruagem para tentar achar algo numa cidade prxima.
Priscilla considerou como um "verdadeiro milagre" o fato de encontrarem 
um traje to lindo, que, se era discreto para a igreja de St. George, em 
Hanover Square, parecia rico e vistoso para a pequena igreja de Little 
Stanton.
Era, segundo o conde, uma cpia fiel dos vestidos que a rainha lanara na 
moda, com corpo comprido, saia ampla, uma pequena gola alta e o decote e 
as mangas cobertos de renda, deixando entrever os ombros nus.
A maior beleza do traje, porm, estava no vu de renda de Bruxelas, que 
caa em cascata at o cho, e na maravilhosa grinalda, toda incrustada em 
brilhantes, num trabalho delicado e maravilhoso imitando flores de 
laranjeira.
Aquela maravilha que certamente faria sua noiva sentir-se como uma
personagem de conto de fadas no teria sido usada nao fosse a oportuna
interveno de mr. Anstruther:
Suponho, milorde, que v querer que sua futura esposa Use o tradicional 
vu de Rock?
Sim,  claro. No havia pensado nisso...
Sr. Anstruther disse ento com a voz cheia de orgulho, como
fosse membro da famlia:
69
- O vu e a grinalda tm sido usados por todas as noivas da famlia nos
ltimos cento e cinquenta anos. A srta. Priscilla no poderia fugir 
tradio!
O conde preferira calar-se para no mostrar sua ignorncia a respeito dessa
faceta familiar de que nunca tomara conhecimento.
Imagine-se ento a reao que Priscilla teve ao ver essa pr ciosidade.
Muito consciente da diferena social existente entre o conde e ela,
sentia-se com frequncia a prpria Gata Borralheira receava que ele
pudesse se envergonhar dela.
com o corao batendo descompassadamente, vestira-se finalmente para o 
grande dia, convicta de que em toda Bond Street no poderia haver vestido
mais lindo, nem vu e grinalda mais radiosos.
Caminhara at o espelho com a respirao ofegante e surpreendera-se com a
prpria imagem. Estava diferente. No fundo de seu corao acalentava
apenas uma prece:
- Deus, permita que ele me ache bonita... faa com que ele me ache
bonita...
Nunca havia visto pessoalmente damas da alta sociedade, mas podia bem 
imaginar a beleza das mulheres com quem o conde convivia, no palcio de 
Buckingham e no castelo de Windsor, pelas descries e esboos nos 
jornais, como o Gr phic e o Illustrated London News.
O vestido de noiva, porm, parecia-lhe de incomparvel beleza, fazendo-a 
sentir-se como uma verdadeira ninfa emergindo da gua pela manh, com os 
brilhantes cintilando em sua cabea aos primeiros raios de sol.
O conde podia orgulhar-se dela. Mas... no era apenas isso que queria que
ele sentisse.
Queria sentir-se amada, queria ler nos olhos dele aquela e presso 
inigualvel que lhe dissesse que no apenas havia lh dado um anel e seu 
nome, mas principalmente seu corao.
70
Quero o amor dele - disse quase implorando ao espelho,
sentiu o corao apertar-se.
No tinha mais ningum de verdadeiramente seu.
Pensou que seria muito bom se seus pais estivessem na igreja e pudesse 
ser levada ao altar pelo brao de Richard, seu irmo.
Amava muito sua bab, mas de vez em quando tinham umas rusguinhas por 
divergirem em alguns assuntos.
O conde, porm, era complacente e parecia entend-la melhor do que 
qualquer outra pessoa no mundo.
Depois da singela cerimnia que os tornou marido e mulher, Priscilla teve 
mais uma prova disso.
Por sugesto do conde, ao sair da igreja, ela encontrou Jason e Mercury a 
esper-la, acompanhados por Ben.
- Oh, no poderia ter me dado alegria maior! - exultou ela ao saber que a 
iniciativa havia partido do marido. - Jason e Mercury so meus 
companheiros inseparveis e tm compartilhado comigo horas difceis... a 
quem mais eu poderia segredar meus sonhos e aflies se no com eles?
- Agora voc tem a mim para falar - disse o conde em tom srio.
A expresso de Priscilla tornou-se sria tambm. Ela pareceu aguardar que 
ele lhe dissesse mais alguma coisa.
- Vou fazer o possvel para procurar entend-la e creio que no vai ser 
difcil - assegurou-lhe.
Priscilla deu um leve suspiro.
- Receio que de vez em quando me ache... tola e infantil
- Juro que nunca vou achar - comprometeu-se ele, com um sorriso nos 
lbios.
Priscilla achou graa.
- Est a uma promessa que talvez ache difcil de cumprir reconheceu 
Priscilla -, mas eu gostaria de poder lhe dizer
o que me viesse  cabea, sem recear que risse de mim...
71
- Isso, sem dvida, posso prometer - disse o conde, ficando novamente 
srio.
- Sabe, Priscilla, como no tivemos a possibilidade de conviver por muito 
tempo e de nos conhecermos bem,  muito importante que possamos conversar 
com toda sinceridade e franqueza, sem preocupao de mal-entendidos.
-  isso mesmo que desejo - ela imediatamente replicou.
- S que, como voc tem muito mais experincia de vida do que eu, no 
gostaria de aborrec-lo com muitas perguntas, embora haja tanto que eu 
queira aprender...
O conde riu.
- E h tanta coisa que quero lhe ensinar! Mas primeiro, voc precisa 
compreender, tenho de estar completamente recuperado.
- Claro! No precisa se preocupar, o dr. Jenkins fez um verdadeiro sermo 
para mim e para a bab hoje cedo, dizendo que no pode se esforar muito, 
precisa ser bem cuidado, para no ter uma recada.
- Pelo amor de Deus, no tenho a menor inteno de ter recada alguma. 
Chega o que passei!
A inteno de ambos no podia ser melhor. Entretanto, depois de viajar os 
poucos quilmetros que separavam a igreja de Rock House, o conde estava 
com uma aparncia exausta.
Avistava-se a casa agora e, para sua contrariedade, o conde sentia-se 
vencido pelo cansao. Ele tinha conscincia de que no apenas estava 
debilitado fisicamente, como tambm moralmente, pela ansiedade que vivera 
nos ltimos dias, sob a ameaa de Louise, e a perspectiva do casamento.
Priscilla notou-lhe a palidez e pegou uma das mos dele entre as suas,
- J devemos estar chegando - animou-o.
O gesto no poderia ter sido mais reconfortante. O conde teve a sensao 
de estar  espera daquela mo amiga por toda uma vida. Pressionou seus 
dedos nos dela e fechou os olhos por um momento.
72
Ao abri-los no minuto seguinte, a carruagem havia parado ao lado dos 
degraus da entrada de sua manso, tendo sido estendida uma passadeira 
vermelha para que subissem por ela.
Os empregados estavam todos alinhados no hall  espera dos dois, 
envergando seus melhores uniformes.
O conde e Priscilla trocaram apertos de mo com todos e dirigiram-se ao 
salo nobre, com suas paredes revestidas de brocado de seda e o teto
ornamentado por lindas pinturas, em tons suaves e harmonizantes.
Em todos os cantos do salo, havia enormes vasos de flores e Priscilla 
no pde conter uma exclamao de prazer diante de tanta beleza.
Foi ento que ouviu o conde, ao seu lado, dizer:
- Pelo amor de Deus, tragam-me um copo de brandy!
O susto de Priscilla foi maior ainda ao constatar que o conde estava
quase desmaiando. Ajudou-o imediatamente a sentar-se e, felizmente, o
mordomo, que ouvira o pedido, j chegava com o copo de bebida.
- Aqui est o brandy, milorde. Beba e logo vai se sentir melhor.
A bebida forte desceu queimando pela garganta do conde.
- Tive a impresso de que ia cair - ele disse entre dois goles.
Terminou de beber e deu-se conta de que Priscilla estava ajoelhada ao seu 
lado, olhando-o assustada.
Olhou-a fixamente por um momento e ia procurar tranquiliz-la quando 
percebeu algo alm de ansiedade naqueles expressivos olhos azuis: a 
inconfundvel chama do amor.
Seria impossvel descrever a emoo que conheceu naquela
o de segundo.
Aquela quase menina era agora sua mulher. Teve um desejo enorme de
aninh-la em seus braos e mim-la muito.
Muito fraco ainda, esboou um sorriso e acariciou o rosto que Priscilla
erguia para ele.
73
- Desculpe-me se a assustei. Na verdade, no era assim que pretendia 
comear nossa nova vida - disse com suavidade. -. Mas prometo me 
comportar melhor para o futuro.
A expresso sria de Priscilla abriu-se num sorriso luminoso de 
esperana.
74

CAPITULO V

O conde examinava uns papis, no jardim de inverno, quando Priscilla se
aproximou dele, meio hesitante porque usava pela primeira vez um dos
vestidos encomendados em Londres.
Ele levantou os olhos e imediatamente percebeu pela expresso do rosto 
dela que estava querendo sua aprovao.
- Est linda! Espero que tenha gostado dos vestidos. Bates me disse que a 
encomenda chegou hoje cedo.
- So todos maravilhosos. Nunca tive nada sequer parecido, s que ainda 
me sinto meio estranha...
- Pois parece que sempre andou vestida assim - comentou o conde para 
encoraj-la.
A expresso de Priscilla se iluminou ao ouvir o comentrio. No restava 
dvida de que estava ansiosa para agrad-lo, o que fez o conde pensar em 
como era vulnervel, e que seu casamento talvez no viesse a ser to 
fcil como a princpio havia imaginado.
Estivera muito fraco e cansado nos dois dias anteriores para Pensar em 
outra coisa a no ser na prpria recuperao.
Depois do mal-estar que sentira ao chegar, pedira a Bates Para ir buscar 
o dr. Jenkins.
O mdico lhe passara um sermo por haver abusado, recriminando-o:
- Temos muito pouco conhecimento sobre fraturas, milord. S o que
sabemos  que o paciente deve fazer o mximo de repouso e no se
movimentar muito. Milorde est pagando por ter desobedecido s
recomendaes.
75
- Est bem, est bem - concordara o conde, irritado. - J entendi, mas 
agora quero tratar de ficar bom.
- Uma coisa so os problemas fsicos, milorde, outra os mentais - 
sentenciara o mdico, com perspiccia. - Tenho a impresso de que o 
senhor deve tambm cuidar de sua mente.
O conde no dera qualquer resposta, mas sabia que o mdico estava certo.
Estava desgastado com as preocupaes, preocupaes por causa de Louise, 
preocupaes por causa de seu casamento com Priscilla, uma jovem que 
agora no lhe parecia to simples e submissa como imaginara.
No que tivesse se enganado. Confiara demais, entretanto, na atrao que
exercia sobre as mulheres e julgara que quem quer que se casasse com ele 
estaria satisfeita em ter sua afeio como marido.
Embora no tivesse dito, pressentia agora, porm, que Priscilla no se 
contentaria com uma simples afeio. Queria amor.
Via pela expresso de seu olhar, quando se ajoelhava ao seu lado, que 
estava perdidamente apaixonada por ele, pouco se importando com as 
vantagens materiais do casamento, querendo, isso sim, t-lo todo para si, 
como homem.
"Talvez eu esteja exagerando quanto aos sentimentos dela", procurara se 
convencer ao acordar desassossegado no meio da noite.
Sabia, porm, por uma espcie de intuio que no lhe era habitual, que, 
no que dizia respeito ao amor, Priscilla, como Jason, estivera  procura 
de seu Velo Dourado e tudo faria para consegui-lo, depois de t-lo 
encontrado.
Pela primeira vez em sua vida, o conde encontrara-se pensando na reao 
de uma mulher em relao a ele, em vez de pensar no comportamento dele em 
relao a ela.
Procurava dizer a si mesmo que estava imaginando coisas.
76
Mas todas as atitudes dela acabavam por reforar sua convico de que o
que tinha a lhe oferecer no iria satisfaz-la.
com os olhos muito brilhantes, Priscilla chegou mais perto dele e disse:
- Como posso lhe agradecer? Como posso faz-lo entender o que significa 
para mim ter todas essas roupas bonitas e no mais me sentir como uma... 
Gata Borralheira no palcio do... Prncipe Encantado?
-  assim que se sente?
- Claro - respondeu ela, enftica -, embora no tenha ainda visto nada do 
Palcio Encantado porque tenho andado todo o tempo praticamente de olhos 
fechados!
- Como assim? - ele perguntou, surpreso.
- Pensei que voc quisesse me mostrar pessoalmente todas as dependncias 
da casa e todas as suas preciosidades. Por isso estou procurando nem 
olhar para os quadros e todas as outras coisas at que esteja 
suficientemente bom para caminharmos juntos por cada aposento.
Era o tipo de sensibilidade que podia esperar dela, pensou o conde.
- Certamente quero ser o seu guia e lhe mostrar cada pedao de Rock. 
Quero descobrir em seus olhos a admirao por cada sala, cada objeto da 
casa.
- Disso no tenho dvidas!
Os olhos dos dois se encontraram; nos de Priscilla estava Paramente 
escrito que ele  que fazia do casamento um conto de fadas, e o lugar
onde morava s era importante por causa dele.
- Venha sentar-se aqui ao meu lado. Creio que devo me Desculpar por ter 
sido uma companhia to pouco agradvel nestes dias.
-  compreensvel. Dr. Jenkins me censurou por permitir
77
que voc fizesse tantas extravagncias antes de estar completamente
recuperado.
- Fui eu quem quis, por isso no posso me queixar, nem culpar quem quer 
que seja.
- De qualquer forma, deve se cuidar - ela recomendou, com ar srio. - O 
mdico disse, inclusive, que deve evitar desgastes mentais.
- Asseguro-lhe que no h nada errado com minha cabea
- observou o conde, irnico. - Na verdade, est to boa que at j me 
permiti fazer planos para melhoramentos na nossa propriedade. Gostaria de 
ouvi-los?
O conde tratou, assim, de desviar o assunto de seu relacionamento pessoal 
que j comeava a deix-lo perturbado.
Apanhou ento os papis que estava examinando, dentre os quais despertou 
a ateno de Priscilla a propaganda de uma mquina debulhadora.
- Est mesmo pensando em comprar esse equipamento?
- Sabe para que serve? - o conde perguntou, curioso.
- Sei, claro - ela replicou com ar grave.
- Acho que toda propriedade moderna deve t-lo.
- Tambm acho, mas ao mesmo tempo acho que deve ter muito critrio para 
instal-lo.
O conde olhou-a mais surpreso ainda.
- Talvez estivesse no exterior - esclareceu ela - quando houve uma 
rebelio entre os trabalhadores rurais devido  instalao de mquinas 
debulhadoras.
- Fiquei sabendo disso, naturalmente - ele retrucou. Agora, porm, os 
trabalhadores j aceitaram a ideia.
- No esteja to certo disso. Nesta rea no foi implantada nenhuma ainda
e todos ficaro muito assustados, a menos que voc deixe bem claro que os
salrios deles nada sofrero com essa implantao.
78
O conde a olhava agora abismado.
- Como sabe disso?
- Ora, h muitas fazendas em volta de Little Stanton com cujos 
proprietrios sempre nos relacionamos muito bem.
- Fico realmente surpreso, Priscilla, de v-la interessada em mquinas 
agrcolas e na reao dos lavradores a elas.
-  natural que me interesse. Ouvi tantas histrias a respeito da
situao dos lavradores, de seu inconformismo e revolta, de queimadas de
trigo, de quebra de mquinas, de fugas e... enforcamentos. Como ficar
indiferente?
Priscilla suspirou tristemente.
- Era uma batalha perdida... O que me conforta  que na maior parte da
Inglaterra no h mais tanto sofrimento e indigncia como houve ento.
O conde pousou os papis no colo.
- Vejo pelo que me diz que vou ter de examinar os melhoramentos que 
pretendo introduzir de um outro ponto de vista. Estava apenas 
considerando a eficincia das mquinas.
- Sem dvida so eficientes - concordou Priscilla. - Mas os trabalhadores 
contam com o dinheiro que vo ganhar durante a colheita para se manterem 
nos demais meses do ano, alm do que, em muitas fazendas, seus ganhos so 
irrisrios.
O conde examinou Priscilla, sentada no sof ao seu lado, e pensou que 
aquele no era absolutamente o tipo de conversa que esperava ter com 
algum to jovem e cuja cabea parecia estar at ento apenas povoada por
contos de fadas.
Os comentrios dela eram realmente procedentes. Lembrava-se de ter lido a 
respeito da rebelio de trabalhadores em Kent e Sussex, bem como em 
outros condados do sul, e de como
O governo procurara combat-la, enviando tropas para enfrentar os 
rebeldes que estavam apenas lutando para salvar suas famlias da
inanio.
79
Sua mulher o olhava com expresso ansiosa, aguardando, visivelmente, uma 
tomada de posio de sua parte.
- Prometo-lhe que qualquer equipamento que eu v introduzir em minha 
propriedade no trar prejuzo algum aos empregados - disse-lhe em tom 
quase solene.
Priscilla deu um suspiro de alvio, mas tinha outras reivindicaes a 
fazer, para espanto do conde:
- Quando tiver algum tempo, creio que deveria visitar algumas casas de... 
colonos, especialmente as do lado... norte.
"So as que ficam prximas a Little Stanton", pensou o conde, 
pressentindo a resposta, mas perguntou:
- Por qu?
- Porque esto precisando de muitos reparos. Se vai fazer inovaes, 
creio que poderia dispor de algum dinheiro para melhorar e modernizar as 
casas dos que trabalham para voc, no ?
O conde soltou uma gargalhada. Vendo, porm, a expresso sria dos olhos 
da esposa, justificou-se:
- Estou rindo porque nunca poderia imaginar ter me casado com uma 
reformadora!
Priscilla corou.
- Foi voc mesmo quem disse que deveramos falar francamente um com o 
outro. H algum tempo que venho desejando conversar com voc a este 
respeito, mas achei melhor esperar at que estivesse bem de sade.
- Pois estou muito bem - afirmou o conde. - Pode me dizer tudo o que 
desejar a respeito da minha propriedade.
Priscilla pegou-o pela palavra. Disse-lhe tudo o que queria
sobre as pssimas condies em que viviam os trabalhadores,
sobre as famlias inteiras compartilhando de um nico quarto,
sobre fossas quebradas, sobre telhados vazando, sobre poos
80
de gua contaminada sem que ningum tomasse uma providncia, embora o
prprio mdico tivesse conhecimento.
Falava rapidamente e num s flego, parecendo temer que o conde se 
cansasse de ouvi-la e lhe pedisse para parar antes de terminar tudo o que 
tinha a dizer.
Ele, porm, no a interrompeu. Somente quando Priscilla parou de falar, 
comentou:
- Fico contente que tenha me dito tudo isso, embora me pergunte o porqu 
de ter de ouvir tudo isso de sua boca quando tenho um gerente 
administrativo.
- Acho que a culpa no  de mr. Anstruther.
- Por que o defende?
- Porque, pelo que ouvi dizer, nem seu tio nem seu primo estavam muito 
preocupados com a gente que trabalhava para eles. Na realidade, creio que 
nem os via como seres humanos, mas apenas como um instrumento de produzir 
o que precisavam.
O conde no pde deixar de dar razo a Priscilla.
Sabia que o tio sempre passara a maior parte do tempo em Londres, tanto 
nas residncias reais, como na Cmara dos Lordes.
Seu primo, o visconde, com quem nunca tivera grande afinidade, sempre 
estivera empenhado em se divertir em corridas de cavalos ou na companhia 
de mulheres.
Fora por causa de seus incontveis casos amorosos que acabara no se 
casando, deixando de dar um herdeiro ao ttulo.
O conde via agora, porm, que a tarefa  sua frente era bem ais difcil 
do que imaginara.
Como se lesse o pensamento dele, Priscilla ponderou:
- S voc pode mudar esse estado de coisas. S voc pode consertar o que 
tem estado errado h tanto tempo!
81
Ele levantou-se e atravessou o jardim de inverno, parando  porta, que 
dava para os jardins.
O sol estava quente e a brisa, morna. Todas as flores haviam desabrochado 
nos ltimos dias. Havia uma profuso de lilases, azalias e narcisos. As 
rvores estavam cobertas de rosa e branco. Era um cenrio mgico, 
perfeito para o conto de fadas de Priscilla.
Para o conde, agora, toda a beleza de Rock, que levara em sua lembrana 
para tantas partes do mundo, parecia-lhe como uma cortina de teatro, 
escondendo tantos aspectos feios.
Pela primeira vez desde que herdara a propriedade no a enxergava como 
uma possesso magnfica e invejvel, mas sim como uma pesada obrigao,  
qual teria de se dedicar com afinco para conseguir a perfeio que 
almejava.
Vinha-lhe no momento a mesma sensao que inmeras vezes vivenciara no 
passado, quando lhe era entregue uma corporao de recrutas completamente 
inexperientes para que os tornasse uma fora de luta eficiente, digna do 
regimento a que pertenciam.
Priscilla no saiu do lugar e, mesmo sem se voltar, o conde sabia que ela 
aguardava o que ele iria dizer sobre a posio que assumiria quanto ao 
futuro.
Era estranho que tivesse sido ela a lhe mostrar suas obrigaes e que, 
muito mais jovem do que todas as mulheres com quem havia convivido, 
fosse a nica a se preocupar com os menos favorecidos e no apenas
consigo mesma.
Ele voltou-se para ela, enternecido, desejando ouvi-la, mais uma vez, 
falar da nobreza de sentimento que a ligava ao prximo.
- O que lhe importa se essas pessoas no foram to bem cuidadas?
Priscilla sorriu.
- Claro que jamais imaginei que teria qualquer relao pessoal
82
com elas, mas so gente exatamente como voc e eu, e me magoa saber
que no tm a menor chance de felicidade.
- Eu entendo perfeitamente, querida. Oua, como conhece muito mais o 
campo do que eu, conto com voc para me ajudar em minhas obrigaes e 
trabalhar para que as coisas melhorem.
O rosto de Priscilla iluminou-se, fazendo o conde pensar que ela vibrava 
diante da perspectiva de um trabalho rduo, enquanto outras mulheres 
teriam aquela expresso apenas diante de um presente como um bracelete de 
brilhantes.
- Tem mais alguma coisa a me dizer? - indagou ele, ainda meio perplexo 
com o rumo da conversao.
Priscilla ficou tentada a mencionar outros assuntos que tambm 
precisariam da ateno dele, mas parou a tempo.
- No quero cans-lo com tantas coisas de uma s vez. No se esquea do 
que o dr. Jenkins recomendou. Mesmo todos os melhoramentos que pretende 
fazer  bom que sejam implantados aos poucos.
- Conversaremos a esse respeito um outro dia. Prometo que no vou abusar. 
No momento o que mais me preocupa  voc.
- Eu, por qu? - surpreendeu-se Priscilla.
- Tenho conscincia de que sou um noivo muito decepcionante - respondeu o 
conde. - Imagino que deva se sentir meio lograda, primeiro por no ter 
tido o casamento pomposo com que toda mulher sonha, segundo por seu noivo 
estar quase "incapacitado".
Priscilla riu e corou.
- Achei nosso casamento lindo e no desejava ter ningum Presente a no 
ser a bab.
- E Jason e Mercury  sua espera, na sada - ele brincou.
- Ah, Mercury est encantado com o estbulo e, principalmente, com os
puros-sangues com quem est convivendo!
Era a criana existente nela que falava outra vez.
Essa dupla faceta de Priscilla, da quase menina que ainda habitava no 
mundo das fadas  mulher reformadora, seriamente
83
preocupada com os problemas e situao dos trabalhadores, chegava
a ser fascinante.
- Voc no falou que desejava ter na igreja uma deterrninada pessoa, em 
especial?
Priscilla demorou alguns segundos para entender. Depois exclamou:
- Claro que no esqueci de voc. Sem voc no haveria casamento!
- Ainda bem!
- Se voc soubesse como me assustei quando o vi passando mal ao chegarmos
aqui depois do casamento! Cheguei a me arrepender de no ter insistido
para que esperssemos mais uma semana...
Era a abertura que o conde estivera aguardando. Procurou entre os papis 
a cpia de um anncio que mr. Anstruther mandara colocar num jornal
londrino e que fora por ele cuidadosamente redigido.
- Quero que leia isto.
Havia uma certa apreenso no olhar de Priscilla ao pegar a folha da mo
dele, talvez devido ao tom misterioso com que lhe pedira para ler o
papel, o que ela fez em voz alta:
"Acabamos de ter conhecimento do casamento do conde de Rockbrook com 
Priscilla, filha do falecido coronel Edward Cranford e da tambm falecida 
sra. Cranford, da propriedad de Little Stanton, Buckinghamshire. A 
cerimnia, que se deu algum tempo, foi muito simples e discreta devido ao 
luto da famlia.
A participao do casamento demorou a ser feita por causa dos ferimentos
que o conde sofreu durante uma cavalgada dos quais ainda no se encontra 
completamente recuperado.
O conde e a condessa de Rockbrook esto agora oficialmente residindo em 
sua propriedade, em Buckinghamshire, e ns lhes enviamos nossos sinceros
cumprimentos e os mais calorosos votos de felicidades".
84
Priscilla estava com o cenho franzido ao terminar de ler o anncio.
- Mas ns no nos casamos "h algum tempo" - estranhou ela.
- Tenho minhas razes para desejar que pensem que o casamento se deu mais 
cedo.
Fez-se um silncio carregado, que foi quebrado pela voz hesitante de 
Priscilla:
- Voc... voc no quer... me dizer a razo para... termos de... mentir a 
respeito?
- Mentir  uma palavra muito pesada - o conde apressouse a dizer. - 
Prefiro pensar no assunto como uma particularidade que no interessa a 
ningum, a no ser a ns mesmos.
-  esquisito... e talvez seja de... mau agouro.
- Como disse, no pode afetar ningum, a no ser ns mesmos - insistiu o 
conde. - Estou apenas lhe dizendo para o caso de algum nos indagar.
- Quem, por exemplo?
- Ningum em especial.
- Em Little Stanton todos vo saber que no  verdade.
- A nica pessoa em Little Stanton que sabe que nos casamos  o vigrio.
Priscilla no o contradisse para no aborrec-lo, mas no tinha dvidas 
de que todos associariam o casamento  sua ida para Rock.
Se o conde queria acreditar que a cerimnia na igreja fora em absoluto 
sigilo, por que haveria ela de decepcion-lo, dizendo o contrrio?
No podia deixar, porm, de sentir uma enorme curiosidade Quanto ao fato 
de ele querer demonstrar que o casamento ocorrera algum tempo antes, e 
arriscara um novo comentrio para ver se o induzia a falar.
- Elizabeth sabe a data de nosso casamento.
- Teve notcias dela? - o conde perguntou.
85
- Sim, recebi uma carta agora cedo. Mostrou-se feliz e animada com o
nosso casamento e contou que tambm estar casada dentro de duas semanas.
- Apesar de j esperarmos por isso no deixa de ser uma tima notcia.
- S espero que voc esteja completamente bom para podermos ir. Ela 
ficar desapontada se no formos.
- J me sinto completamente bom, at para andar a cavalo ou fazer 
qualquer outra coisa que tenha vontade.
- Nada disso! - protestou Priscilla. - Voc deu a sua p lavra ao dr. 
Jenkins que ficaria de repouso por mais uma se mana, s caminhando por 
aqui ou tomando um solzinho, e no vou deix-lo voltar atrs.
- O dr. Jenkins  muito exagerado - argumentou ele e voc e a bab ficam 
me mimando de tal modo que vou engordar tanto a ponto de nunca mais
conseguir fazer esforo algum.
- Estamos todos apenas pensando na sua recuperao justificou-se
Priscilla, voltando os olhos para o anncio em suas mos.
O conde calou-se por um momento, pensativo. Vieram-lhe  lembrana as 
palavras insistentes do mdico:
"O mal-estar que teve, milorde, foi um aviso.  bom que tenha isso em
mente e procure repousar no mnimo por mais uma semana, o que significa:
nada de andar a cavalo, nada de sacudir-se na carruagem, nada de fazer
amor".
No gostando da interferncia em sua vida pessoal, o conde franziu a 
testa, mas no disse nada.
O mdico, julgando que suas recomendaes estavam sendo bem recebidas, 
prosseguira:
"Sei que no  fcil, mas seu casamento foi muito precipitado e, como 
ainda no est bom, seria um erro maior querer consum-lo agora. Peo-lhe 
que se d um tempo e, se quiser
86
seguir meu conselho, como no teve noivado, aproveite esses dias para
fazer a corte a sua mulher".
O conde continuara calado, causando um certo constrangimento ao mdico,
que pouco depois se despedira.
Refletindo um pouco melhor, ele chegara a dar razo ao dr. Jenkins, cujas 
palavras eram verdadeiramente sensatas. S naquele momento ocorrera-lhe, 
porm, que, na pressa de ajeitar sua prpria situao, no havia 
considerado por um momento sequer os sentimentos pessoais de sua noiva.
Quanto mais a via agora, mais achava que ela no se encaixava na imagem 
inicial que havia feito dela, de uma mulher tranquila, complacente, de 
gostos simples e de inteligncia at certo ponto limitada.
Estava claro que sabia muito bem o que queria, tendo reivindicaes a 
fazer e no aceitando simplesmente o anncio de seu casamento com data 
adiantada. Sentia-se intrigada e aguardava uma explicao mais plausvel.
No via como, entretanto, contar-lhe a verdade. Precisava pensar em
qualquer outra justificativa.
Depois de ler e reler o anncio, voltou novamente a insistir:
- Se as pessoas me perguntarem sobre... quando nos casamos, voc deseja 
que eu... minta?
- As pessoas dificilmente vo nos perguntar a respeito da data - replicou 
o conde. -  mais provvel que perguntem sobre o local e ento poder 
lhes dizer a verdade.
Priscilla no parecia muito convicta.
- Quero que entenda uma coisa - disse o conde, numa tentativa de 
persuadi-la -, a sociedade em geral vai achar estranho que no tenhamos 
convidado todos os meus parentes e que voc no os tenha conhecido antes 
de nos casarmos.
- Como no tenho parente algum, no imaginei que voc tivesse - Priscilla 
aparteou.
87
- Tenho e muitos, muitos mesmo - confirmou ele. - Sem dvida, no devido 
tempo ir conhec-los. Mas, como durante todos estes anos ningum teve
 grande considerao por mim julguei que no havia necessidade de 
receb-los to cedo depois da morte de meu tio.
- Mas no vo estranhar que tenha se casado sem avis-los?
- Sabiam que eu nunca tinha imaginado que herdaria o ttulo e vo
concluir que no desejei adiar o casamento por causa do luto, optando por 
uma cerimnia simples, deixando as devidas apresentaes para depois.
O conde congratulou-se pela sada que lhe pareceu bem convincente e ficou 
mais tranquilo ao observar que Priscilla havia aceitado a explicao.
- Naturalmente vou fazer o que achar melhor e fico contente de... 
estarmos sozinhos at que... voc se sinta perfeitamente bem.
Era exatamente isso que desejava ouvir dela. Estendeu os braos em sua
direo e pegou-lhe uma das mos.
- Sou-lhe muito grato, Priscilla, por sua compreenso.  bom mesmo que 
estejamos sozinhos para podermos nos conhecer melhor.
- Pois eu sinto como se o conhecesse h anos e anos... por sculos... 
talvez de uma outra vida.
O conde a olhou, surpreso.
- Desde que o vi pela primeira vez tive a sensao de conhec-lo de algum 
lugar. Foi Richard que me contou que na ndia o povo acredita na teoria 
da reencarnao. Sempre pensava nisso e imaginava se um dia viria a 
encontrar algum que j tivesse conhecido em uma outra vida.
- Preciso ento tratar de tambm acreditar nisso. No quero que se sinta 
isolada, nem em pensamento.
Essas palavras evidentemente soaram melodiosas aos ouvidos de Priscilla, 
cuja expresso se enterneceu.
88
O conde levou a mo dela aos lbios e beijou-a, sentindo-a estremecer a 
esse contato.
- Voc  uma jovem doce e encantadora, Priscilla - disse com suavidade -, 
e posso garantir que, mesmo que nos conhecssemos h milhes de anos, 
sempre haveria alguma coisa a mais que eu desejaria saber a seu respeito.
Os olhos de Priscilla ganharam expresso e encanto.
- Tive tanta sorte... tanta sorte... de encontr-lo. Agora sei que era 
voc quem eu procurava, mas... no tinha certeza disso at que voc... me 
pediu em casamento.
O conde gostaria de retribuir as palavras, mas sabia que soariam falsas 
se no fossem absolutamente sinceras. Disse ento:
- Acho interessante essa sua crena na reencarnao. Quando estive na 
ndia, ouvi falar que faz parte das religies hindus, mas no me 
aprofundei mais no assunto. Estava ocupado demais treinando tropas e 
combatendo rebeldes.
- No deve ser muito bom lutar num lugar to lindo. Richard disse que a 
ndia  maravilhosa.
-  um pas realmente muito bonito - ele concordou -, mas neste momento 
acho que no h cenrio mais lindo do que o que nos cerca.
Priscilla desprendeu a mo da do conde e levantou-se, caminhando at a 
porta para olhar o jardim.
O conde observou a graa com que ela se movimentou, notando como o 
vestido novo acentuava a linha bem-feita de seu corpo. Vendo-a  porta, 
banhada de sol e tendo por fundo o multicolorido das flores, disse -a si 
mesmo que dificilmente encontraria outra mulher mais encantadora e meiga 
do que sua priscilla.
"Tive sorte", pensou consigo mesmo, "mais sorte do que consigo expressar. 
"
Ocorreu-lhe de repente que, em lugar de Priscilla, Louise poderia estar 
ali parada e sentiu um calafrio na espinha.
89
Priscilla pareceu-lhe ento um anjo da guarda, protegendo-o dos perigos e 
riscos que tivera de enfrentar.
Mais do que nunca, associava a sua imagem  do lrio, por sua candura e 
pureza. Sem se conter, estendeu os braos:
- Venha c, Priscilla!
Ela voltou-se e dirigiu-se a ele.
O conde tomou ambas as mos da jovem nas suas.
- Oua, querida, quero lhe dizer como a acho linda e como admiro a 
maneira como est se comportando nestas circunstncias to difceis.
Ela apertou as mos dele nas suas e olhou-o profundamente.
- Tenho certeza de que no era assim o casamento que sonhava - prosseguiu 
ele -, mas quero que saiba que me orgulho de voc e que estou feliz de 
t-la aqui.
As palavras agora vinham direto de seu corao e parecialhe justo deixar 
que Priscilla soubesse disso.
Ela continuava a olh-lo bem dentro dos olhos, como quem procura ler na 
prpria alma do outro a resposta para os anseios de seu corao.
O conde levou aos lbios uma das mos de Priscilla e sentiu como era 
macia a pele dela. Imaginou, ento, como seria bom beij-la na boca. Seus 
lbios tambm deviam ser macios, doces e inocentes.
As palavras do dr. Jenkins voltaram-lhe uma vez mais  memria: devia ter 
calma e no precipitar as coisas.
Levantou a cabea e viu o rosto corado de Priscilla.
Percebeu que aqueles beijos inocentes haviam despertado nela sensaes 
ainda desconhecidas. Novamente teve vontade de abra-la contra o peito e 
beij-la suavemente nos lbios.
O encanto do momento foi subitamente quebrado.
Priscilla soltou as mos das dele e, com uma voz muito tmida, bem 
diferente da habitual, disse-lhe:
90
-  melhor eu ir procurar Jason. Est na hora do passeio dele.
com o rosto ainda corado e os olhos muito brilhantes, ela saiu do jardim
de inverno e o conde recostou-se melhor na poltrona e se deixou ficar,
pensando nela.
Naquela noite jantariam pela primeira vez juntos na sala de jantar.
Durante os trs dias aps o casamento, fora obrigado pela bab e por 
Bates a se recolher cedo. Embora Priscilla levasse uma bandeja para cima 
e lhe fizesse companhia, no era a mesma coisa. Antecipava com prazer a 
hora de rev-la na pequena sala de jantar.
Priscilla tambm estava eufrica. Fora procurar o jardineirochefe e 
pedira-lhe que decorasse com o mais lindo arranjo de flores a mesa do 
jantar.
- As flores esto to lindas - comentou, animada. -  uma pena que 
morram!
-  a lei natural da vida, milady. Se durassem para sempre no haveria 
lugar para nascerem as novas - retrucara o jardineiro, achando graa.
- verdade - concordou Priscilla, sorrindo. - Por favor, faa ento um 
arranjo bem lindo para alegrar nossos olhos.
O empregado afirmara que o faria com o maior esmero. Priscilla viu-se a 
seguir com uma nova dvida: "Que vestido usar? "
Haviam chegado peas maravilhosas de Londres: roupas, xales, peles, 
chapus, luvas, sapatos, a mais linda coleo de roupas ntimas, 
adornadas de fitas e rendas, tudo do mais fino gosto.
A modista a quem fora feita a encomenda tivera a devida sensibilidade 
para mandar exatamente tudo o que era necessrio para um enxoval. 
Priscilla, entretanto, estava confusa diante de tantas alternativas, 
embora a bab e o conde parecessem achar tudo muito natural.
91
- Deve ter custado uma fortuna - comentara com a bab pela manh, quando 
chegaram mais algumas caixas.
- Milorde pode muito bem pagar por tudo isso. Depois, sabe muito bem que 
voc no poderia continuar andando por a com os trapos que costumava 
usar em casa.
- Era muito feliz com eles!
- Isso que  ingratido! - a bab dissera, em tom spero.
- Pobre do sr. conde, que gastou um dinheiro para v-la como uma dama da
moda.
- No fao questo alguma de ser uma dama da moda respondeu Priscilla,
 meio brava. - S desejo que ele me ache bonita.
- Ele tem olhos, que eu saiba - a bab retrucara, em tom spero.
Nada mais fora dito, mas Priscilla tinha certeza de que a governanta 
considerava seu casamento no somente estranho, como tambm at 
embaraoso.
Conhecia a bab o suficiente para saber que ela no aprovara inteiramente 
a pressa com que fora realizado e, obviamente, estava preocupada com o 
fato de ainda no estarem dormindo juntos, mesmo que essa fosse a atitude 
mais prudente.
Provavelmente ressentia-se por Priscilla no ter sido arrebatadamente 
carregada por um noivo ardente que a amasse como merecia.
- Um dia ele vai me amar - Priscilla disse a Jason, mais tarde, antes de 
se deitar, sentando-se no pequeno sof de cetim cor-de-rosa existente em 
seu quarto.
- Ele  to generoso, tem uma personalidade to marcante,  to atraente 
- continuou a confidenciar-se com o co. Muitas mulheres devem t-lo 
amado... e ele a elas... E eu? Nada tenho para oferecer a ele a no ser 
meu corao.
Jason aconchegou-se perto dela. como se estivesse entendendo a angstia 
de sua dona pelo tom melanclico de sua voz.
92
- Creio que ele confia em mim - prosseguiu Priscilla, sentindo uma enorme
necessidade de desabafar, tendo, contudo, apenas seu fiel Jason para
ouvi-la. - Pareceu entender o que tentei lhe dizer sobre as dificuldades
da boa gente que mora na propriedade e talvez at possa ajud-los. Mas o 
que quero que sinta  que sou mais importante para ele do que tudo no 
mundo, ttulo, dinheiro...
Ela deu um suspiro profundo.
- Acho que  pedir muito. Talvez devesse reconhecer que j  uma sorte 
ns dois estarmos aqui. Sei que  muita pretenso querer mais, mas, 
Jason, quero o amor dele. Como quero!
As lgrimas insistiram em brincar nos olhos azuis de Priscilla, 
escorrendo livremente pelo seu rosto.
Abraada a Jason, ela deixou-se ficar naquela doce melancolia por algum 
tempo. Seu pensamento ento deteve-se no conde, dormindo no quarto ao 
lado.
Bastaria que, abrisse a porta de comunicao entre os quartos para v-lo, 
para falar com ele.
Uma ideia marota passou-lhe pela cabea. Como ele reagiria se abrisse a 
porta e dissesse a ele que queria apenas sentar-se um pouco ao seu lado 
para conversarem?
Logo descartou essa possibilidade, achando que seria muito atrevimento. 
Alm disso, j estava de camisola e com os cabelos soltos. O conde nunca 
a vira daquele jeito e no ficaria bem ir oferecer-se a ele.
- Vou esperar que ele... me beije. Depois, quem sabe, vir ao meu quarto 
- disse a si mesma.
Em sua ingenuidade, Priscilla tinha conscincia de que seu casamento 
ainda no era verdadeiro.
No dia seguinte, ela atrasou-se um pouco para se levantar. Ao descer, o
conde j estava  sua espera, mais elegante e atltico
93
do que nunca, no revelando qualquer sinal de ter estado acamado.
- Que tal irmos visitar o estbulo? - perguntou-lhe, enquanto tomava seu 
caf.
- Levantei-me com a sensao de que ia me sugerir isso.
Espontaneamente, os dois retomaram o assunto do dia anterior, falando 
sobre poderes sobrenaturais, sobre a ndia, com seus templos e fakirs.
- H algum fantasma aqui? - Priscilla perguntou depois, sria.
- Nunca vi nenhum, apesar de que minha av jurava haver encontrado um no 
corredor que leva  biblioteca e, segundo ela, quando lhe perguntou o que 
estava fazendo, ele sumiu!
Priscilla riu.
- Deve ter sido um desapontamento. Ser que foi bom ou mau pressgio, 
hein?
- Para ele deve ter sido mau - ponderou o conde. - J pensou ficar 
vagando por Rock todos esses sculos em vez de ir direto para o cu?
Fez-se um pequeno silncio. Priscilla perguntou ento, pensativa:
- Voc acredita em cu e inferno?
- Para ser sincero, no tenho certeza - ele admitiu -, da mesma maneira 
que no estou completamente convicto dos poderes sobrenaturais das 
pessoas. s vezes penso que no passam de supersties, algo de muito 
primitivo sendo transmitido s geraes seguintes.
- Talvez um dia voc mesmo tenha uma prova.  o tipo de crena que no se 
pode exigir que o outro tenha.
O assunto foi deixado de lado e, muito animada, Priscilla disps-se a 
acompanhar o conde ao estbulo.
Caminharam vagarosamente para que ele no se cansasse, mantendo-se ambos 
calados, cada um voltado para os prprios pensamentos.
94
Enquanto ela se alegrava pelo prazer de passearem juntos, ele continuava
refletindo sobre o dom paranormal da mulher, mal sabendo que ela podia,
por exemplo, chamar seu co, sem que fosse necessrio pronunciar o nome
do animal.
Bastava to-somente que pensasse nele, e quase imediatamente Jason viria 
a ela.
Pouco antes de se aproximarem do estbulo, podia-se ouvir o relinchar de
um cavalo.
Mesmo antes de entrarem, ele j imaginava que se tratasse de Mercury. E 
no estava errado.
- Este cavalo parece que sabe que milady est chegando disse-lhes um 
tratador, quando entraram. - Todos os dias antes de ela chegar, ele se 
pe a fazer esse barulho.
O conde achou realmente extraordinria a ligao que acabava se 
estabelecendo entre o homem e o animal. Priscilla no contradisse o 
tratador, limitando-se a sorrir. Naturalmente, o primeiro cavalo visitado 
foi Mercury.
- Este  Mercury! - Priscilla apresentou-o, afagando o animal, bonito e 
bem tratado, mas sem o garbo dos cavalos do conde.
- Nem precisava dizer. Veja a expresso do olhar dele quando a enxergou!
- No  bem isso - corrigiu Priscilla. - Ele me ama e sabe guando estou 
pensando nele.
O conde olhou-a meio ctico, sem contradiz-la. Deu uma palmadinha no
dorso do animal, dizendo:
- Vamos agora ver os outros cavalos, seno vo ficar enfurnados.
Para sua surpresa, Mercury seguiu-os calmamente, como um fiel co de 
guarda, parando atrs de Priscilla quando se detinham em cada baia para
ver os animais, que reagiam docilmente aos afagos dela.
O conde concluiu ento que o amor que Priscilla dedicava
95
aos bichos tornava-os mansos e receptivos, mesmo os mais indceis.
Todos os cavalos foram visitados. S ento Priscilla deu-se conta de que 
estavam ali havia mais de uma hora.
- Precisamos voltar logo. A bab disse que ia preparar-lhe uma sopa 
revigorante para que a tomasse no meio da manh.
- No vou permitir que ela fique agindo dessa maneira desptica por muito 
tempo! - avisou o conde.
- Ela vai continuar a mesma, voc queira ou no. - Priscilla riu.
Ela fez uma pausa e o conde entendeu que tinha mais alguma coisa a lhe 
dizer.
- A bab no mais o est vendo apenas como um paciente, sabe. Ela est 
comeando a am-lo, da mesma forma que seus animais tambm o amaro
quando vierem a conhec-lo melhor. Mercury j comeou.
- Imagino que ele tenha lhe dito - ironizou o conde.
- Quando voc o tocou, ele estremeceu de um jeito especial, o mesmo tipo 
de reao que tem comigo. Quando outras pessoas o tocam, no acontece 
isso.
Priscilla falou com tamanha simplicidade que pareceu impossvel ao conde 
rir daquela fantasia quase infantil.
- Como voc diz, tenho mesmo muita sorte - observou. Suponho que voc 
esteja antecipando que essa afeio v se abrindo num grande crculo, at 
abranger toda a minha propriedade.
- Claro! - exultou Priscilla. - No  isso que tambm quer? No faz 
sentido cham-la de "lar" a menos que seja um lugar de amor, onde as 
pessoas se sintam amparadas e protegidas.
Passou pela cabea do conde como soaria sentimental absurda aquela 
atitude aos demais proprietrios de terra.
No entanto, ele ho podia deixar de reconhecer que Priscilla tinha razo.
96
Um lar somente poderia ser concebido a partir do amor; e todos que nele 
trabalhassem, tanto dentro quanto fora, deveriam faz-lo de corao, 
achando que valia a pena.
Nunca antes lhe ocorrera isso em sua vida de soldado, dura e austera.
Seus homens o admiravam e respeitavam, mas no nutriam nenhuma ligao 
sentimental em relao a ele.
Apesar de, em princpio, ter achado que as palavras de Priscilla 
exteriorizavam um ponto de vista apenas feminino, tendo-as ouvido 
polidamente, mas estando disposto a ignor-las, parecia-lhe agora que 
podia conciliar as duas coisas, em benefcio das futuras geraes de 
Rock.
Um novo esprito de lealdade e amor seria infundido em Rock.
Uma rpida retrospectiva de tudo o que sua nova posio havia 
inicialmente significado para ele passou-lhe pela cabea: o lugar que 
ocuparia na corte; os amigos ilustres com quem passaria a conviver; os 
lugares da moda que poderia visitar.
Agora via claramente que Priscilla estava certa. Rock vinha em primeiro
lugar. Precisava ser melhorada, renovada, modernizada.
S depois que tivesse atingido o estgio de desenvolvimento material e 
moral que desejava, poderia se sentir livre para usufruir das vantagens 
do ttulo e de seus bens.
"Vai levar muito tempo para que esse dia chegue", pensou, sem, contudo, 
sentir-se deprimido.
Havia muito a ser feito e fora necessrio que Priscilla lhe Mostrasse 
isso. O desafio, porm, era revigorante.
97

CAPTULO VI

O conde sentia-se to bem que mal resistia ao impulso de ir cavalgar.
Tinha, porm, mais dois dias de convalescena, de acordo com o prazo 
estabelecido pelo mdico, e ele no ousaria enfrentar uma discusso com 
Bates, a bab e Priscilla.
Era muito bom ter trs pessoas preocupando-se com ele, mas, depois dos
longos anos de servio no exrcito, irritava-o um pouco tanto mimo.
Desistiu, pois, de sair a cavalo e foi para a biblioteca trabalhar um 
pouco mais no planejamento das melhorias que pretendia introduzir na 
propriedade.
Seu pensamento, porm, estava qual cavalo indcil, pronto a disparar 
pelas campinas verdejantes. Por mais que tentasse, no conseguia 
concentr-lo nos papis  sua frente.
De divagao em divagao, viu-se dominado pela imagem de Priscilla e 
ps-se a pensar nela.
Onde quer que se encontrasse, na biblioteca, na sala de jantar, ou no 
jardim, sua figura realmente no poderia ser mais adorvel nos novos 
vestidos. Era ao mesmo tempo to frgil que parecia impossvel que 
qualquer preocupao social ou econmica pudesse despertar todo seu vigor 
e energia.
Quanto mais discutiam a respeito dos planos, mais surpreso o conde ficava 
com o conhecimento que ela possua a respeito das dificuldades dos 
trabalhadores e como lhe era importante resolv-las.
Muitas vezes, ele levantava determinadas questes pelo simples prazer
de v-la inflamada e ouvi-la defender os interesses
98
de seus empregados, como na vez em que falavam sobre a construo de
novas habitaes para famlias mais numerosas.
- Se fizermos as casas muito confortveis - dissera-lhe -, as famlias
deles vo crescer assustadoramente.
- Pois eu acho que as famlias numerosas so as mais felizes - contra-
argumentara ela.
- Como sabe se no tem experincia de famlia grande? provocara-a.
- Gostaria de ter tido uma dzia de irmos, para no ficar completamente 
s no mundo como fiquei quando Richard... morreu.
Chegara a arrepender-se da provocao, nessa ocasio. Havia tanta 
melancolia na voz de Priscilla e, ao mesmo tempo, tanta sabedoria em suas 
palavras que sentira uma imensa vontade de aninh-la em seus braos e 
dizer-lhe que nunca mais se sentiria s no mundo.
A prudncia impedira-o de se mostrar afetuoso. Afinal, havia decidido 
manter seu relacionamento numa base amigvel at que estivesse em 
condies de aprofundar esse relacionamento.
Teria ento de lhe falar de amor, o que o punha nervoso s de pensar.
Temia no saber se expressar na maneira idealizada por ela e no
corresponder  imagem de Prncipe Encantado.
Era estranho que, nas ltimas duas noites, havia acordado pensando em
como deveria agir para no desapont-la.
Provavelmente isso se dava porque estava sentindo-se cada dia melhor e
sabia que logo chegaria o esperado momento de -onsumar fisicamente o
casamento.
Priscilla, porm, era to inocente, to diferente de todas as mulheres 
com quem j fizera amor que novamente lhe vinha  cabea a imagem 
imaculada e bela do lrio.
Por outro lado, o conde perguntava-se se atribuir qualidades to 
extraordinrias  mulher no seria um exagero de sua imaginao. Afinal 
de contas, ela no passava de uma moa comum. A diferena estava em que
no tinha tido experincia anterior com jovens do tipo dela.
99
O importante, porm, depois de realizar um casamento meio  precipitado,
era que, com a convivncia diria, estava surgindo entre eles uma doce
intimidade.
Invariavelmente, Priscilla lia seus pensamentos antes que os expressasse, 
e mesmo ele comeava a adivinhar o que ela estava sentindo, sem que o 
dissesse.
Sentindo-se sufocado na biblioteca, no tendo realmente condies de se 
concentrar na elaborao de seus planos, o conde resolveu ir procurar 
Priscilla para talvez irem dar um passeio.
Encontrou-a num dos sales, entretida em distribuir os arranjos de 
flores. Nunca o salo lhe parecera to feminino e acolhedor.
Assim que o viu, os olhos dela iluminaram-se. O conde disse a si mesmo 
que o amor que sentia por ele estava ficando cada dia mais evidente. Um 
calor gostoso invadiu-lhe o peito, consciente de que nunca antes lhe 
havia sido oferecido aquele tipo de amor.
Priscilla imediatamente foi ter com ele. O conde estendeu-lhe a mo e ela 
entrelaou seus dedos nos dele.
- Gostaria de dar um passeio? - perguntou-lhe.
- Se voc estiver se sentindo bem, tenho uma sugesto formidvel a fazer 
- respondeu ela, animada.
- Estou timo para fazer qualquer coisa - o conde retrucou. - A bem da 
verdade, ainda h pouco, senti um desejo louco de andar a cavalo.
- Isso no, ainda  muito cedo! - Priscilla apressou-se a dizer. - Mas 
pensei que pudssemos aproveitar para explorar um pouco a casa. No estou 
mais aguentando ficar de olhos fechados.
O conde riu.
- Tenho certeza de que voc me tapeou um pouco e andou dando umas olhadas 
aqui e ali, hein! Mas, naturalmente, estou lhe devendo a visita oficial e 
acho que podemos comear pelos sales onde ficam os quadros da famlia, 
no andar de baixo
100
- Era exatamente o que desejava - disse Priscilla, eufrica. - S no 
quero que se canse muito.
- H muita coisa para ver, realmente. Vamos levar alguns dias para que
lhe mostre tudo.
Priscilla apertou a mo do conde, visivelmente encantada.
- Vamos comear logo ento!
com os olhos muito brilhantes e os lbios entreabertos num sorriso, sua 
aparncia no poderia ser mais tentadora e sensual.
O conde teve de fazer um grande esforo para resistir ao impulso de 
beij-la.
Mais uma vez, ocorreu-lhe que nunca havia beijado uma mulher que ainda 
no tivesse sido beijada. Os lbios de Priscilla pareceram-lhe mais doces 
e suaves do que nunca. Uma onda de excitao apossou-se dele ante o 
pensamento de que seria o professor dela na desconhecida arte de amar.
Fazer amor com Priscilla seria muito diferente do fogo que logo 
incendiava seu corpo e o das mulheres vividas com quem havia se 
relacionado.
Teria de se controlar para no assust-la, nem choc-la. Queria que ela 
encontrasse a felicidade e o prazer que procurava.
Acariciou com a mo livre o rosto de Priscilla e procurou desviar seu 
pensamento do contato amoroso com ela, que cada dia ficava mais 
insistente, propondo, sorrindo:
- Vamos logo ento comear essa nossa "excurso".
De mos dadas ainda, encaminhavam-se para a porta quando esta se abriu, 
entrando o mordomo que anunciou:
- Esto aqui, milorde, o duque de Torrington e lady Louise Welwyn.
O conde permaneceu esttico por um momento, com Priscilla ao seu lado. 
No contava de forma alguma com aquela visita inoportuna.
Soltou a mo da esposa e caminhou em direo  porta, indo ao encontro do 
duque.
101
- Que surpresa, milorde!
O duque fez um cumprimento com a cabea, mas no estendeu sua mo.
Mesmo sem dirigir o olhar a lady Louise, o conde podia sentir o 
ressentimento estampado no rosto dela.
- Quero lhe falar em particular, Rockbrook - sentenciou o duque, num tom 
indignado.
Virou-se para pedir a Priscilla que os deixasse a ss, mas ela j havia 
se dirigido  porta, fechando-a atrs de si, chegando, porm, a ouvir o 
duque dizer:
- Creio, Rockbrook, que procedeu muito mal com minha filha e exijo uma 
explicao.
O tom era indubitavelmente agressivo e havia uma incontida ameaa 
naquelas palavras, o que poderia tornar a situao difcil.
O conde hesitou por um momento, depois procurou falar em tom de surpresa:
- Receio no estar entendendo, milorde. Quaisquer que te nham sida os 
sentimentos que lady Louise e eu tenhamos tido um pelo outro, no 
acredito que Vossa Alteza tivesse aceito por genro um reles capito, que 
mal conseguia se manter de seu soldo no exrcito.
A resposta havia evidentemente surpreendido o duque que, depois de uma 
pausa, disse:
- Est querendo me dizer que se casou antes de herdar o ttulo de seu 
tio?
- O acidente que vitimou meu tio e primo aconteceu na terceira semana de 
maro...
- Mas o anncio falava em "luto na famlia"!
- O nico irmo de minha mulher foi morto na ndia, no ano passado.
Houve uma nova pausa. Ento, como se o cho tivesse lhe faltado sob os
ps, o duque voltou-se para a filha.
No havia mais hostilidade nos olhos dela.
102
- Por que no esperou mais tempo? - perguntou ao conde, num sussurro.
Ele fez um gesto significativo com as mos.
- Como poderia saber, como poderia imaginar que tanto meu tio quanto meu 
primo morreriam dessa maneira trgica e infeliz?
Fez-se um silncio eloquente.
- Nessas circunstncias - disse finalmente o duque -, devo me desculpar
por t-lo julgado mal.
- Por favor, no pense mais nisso. Permitam-me oferecerlhes um refresco -
prontificou-se o conde. - Vieram de Londres?
- Sim, estamos a caminho do castelo de sir Francis Dashwood, em High 
Wycombe - explicou o duque.
- No o vejo h anos - o conde comentou. - Espero agora poder 
restabelecer o contato com a famlia dele.
Enquanto conversavam, Louise atravessou o salo e foi sentar-se num sof 
perto da lareira.
Examinava tudo ao seu redor e o conde no tinha dvidas de que se sentia 
enciumada e zangada porque agora no teria mais chance de ser a senhora 
de Rock, como tanto desejara.
Depois de sab-lo rico e influente, ficara determinada a casar-se com ele 
e devia ter insistido muito com o pai para que o duque tivesse tomado 
aquela atitude.
Nenhum homem, afinal, deveria sentir prazer em forar o outro a casar-se 
com sua filha.
O conde ficava imaginando o que ela devia ter dito a ele e congratulava-
se consigo mesmo pela eficincia de seu plano.
O duque no podia dizer mais nada depois de saber que o conde havia se 
casado enquanto era um simples capito, e o fato de imagin-lo um 
apaixonado frustrado de Louise, sem chance de conseguir t-la, salvava-
lhe o amor-prprio.
Subitamente, como se ainda no tivesse se conformado com a ideia, Louise
perguntou:
- Mas, se era to pobre como disse, como teve condies de Pensar em
casar e sustentar algum?
103
O conde j imaginava essa pergunta e havia preparado uma resposta:
- Minha esposa provm, como eu, de uma famlia de militares e est 
habituada a se contentar com pouco - esclareceu.
- Ela tem um pequeno rendimento prprio e uma pequena propriedade 
vizinha, onde moraramos quando eu no estivesse com o regimento.
A explicao no podia ser mais plausvel, o que suscitou o comentrio do 
duque:
- Naturalmente se sua esposa era vizinha, devia conhec-la h muitos 
anos.
O conde no gostaria de ter de contar mais uma mentira. Manteve-se calado 
por um momento e, providencialmente, o mordomo e um outro criado entraram 
na sala trazendo uma bandeja com taas de cristal e um balde de gelo de 
prata, onde estava sendo resfriada uma garrafa de champanhe.
Para alvio do conde, o duque serviu-se e o assunto foi esquecido.
- Vamos naturalmente brindar a sua sade, Rockbrook props. - Espero ter 
o prazer de conhecer sua esposa.
- Tenho certeza de que ela se sentir honrada de conheclo, milorde - 
replicou o conde. - Mas, como  muito tmida, creio que vamos deixar para 
uma outra ocasio.
Homem vivido, o duque entendeu que o conde queria evitar o confronto 
entre a nova condessa e lady Louise, que seria embaraoso para ambas.
- Sim, claro, tem toda razo - concordou o duque. - No podemos tambm 
nos deter muito.
Bebeu, entretanto, muitas outras taas e estava meio alto quando o conde 
o acompanhou at a carruagem.
Ao despedir-se de Louise, notou uma certa ameaa no olhar dela, sugerindo 
que sua paixo no morrera e, no tendo conseguido enred-lo como marido, 
ele no se livraria de suas garras na prxima vez que se encontrassem.
Parado nos degraus da entrada at ver a carruagem desaparecer
104
no caminho, o conde sentiu, entretanto, uma inexplicvel sensao
de alvio. No temia mais aquela fera.
Estava livre! Livre de Louise e de sua desconcertante paixo! Livre do 
pesadelo de ter de se casar com uma mulher de quem no gostava e at 
mesmo desprezava!
Seu rosto estava iluminado por um sorriso ao entrar no hall.
- Pea a milady para vir se encontrar comigo no salo pediu ao mordomo, 
dirigindo-se at l para se servir de mais uma taa de champanhe.
Antes de beb-la, levantou a taa num brinde silencioso:
-  minha felicidade futura!
Aquele cmodo nunca lhe parecera to bonito, todo florido e banhado de 
sol.
Priscilla caminhava rapidamente com Jason entre os arbustos.
Sentira uma necessidade urgente de afastar-se da casa e ir para um lugar 
tranquilo onde pudesse pensar.
No lhe saam da cabea as palavras do duque:
"Creio, Rockbrook, que procedeu muito mal com minha filha e exijo uma 
explicao".
com o corao batendo descompassadamente, ficara segurando a maaneta da 
porta, sem fech-la completamente.
Ouvira a resposta do conde, que respondia tambm s suas prprias dvidas 
sobre a razo de ter-se casado com ela e, principalmente, sobre ter de 
mentir quanto  data do casamento.
Estava claro agora. Ele quisera se livrar de lady Louise. S no entendia 
o porqu. Aquela mulher era to linda e elegante! Mas no tinha dvida de 
que seu casamento fora a soluo encontrada pelo conde. Por mais que 
houvesse tentado se iludir, ele no havia se unido a ela por amor.
- Fui o menor de dois males - disse a si mesma, objetivamente.
Priscilla no notava sequer a beleza dos lilases branco e prpura
105
que a rodeavam, nem sentia a fragrncia deliciosa da relva por onde
passava.
- Como eu poderia imaginar... como eu poderia saber que era essa a razo 
de ele me querer? - perguntava-se, inconformada, em voz alta.
Jason levantou a cabea para ela, parecendo entender o sofrimento contido 
na voz de sua dona.
- Mas como deixar de am-lo? Ele  to bom, to belo. amo-o cada vez 
mais!
No fundo de seu corao, Priscilla sempre desconfiara que havia uma outra 
explicao para seu casamento apressado, alm da enfermidade do conde.
Havia concordado, na verdade, por am-lo muito e fingira aceitar que a 
causa fora que no ficaria bem acompanh-lo a Rock sem estar casada.
A desculpa era muito frgil. Se quisesse, o conde poderia ter pedido a 
uma prima, ou tia, que permanecesse com eles at o casamento.
Preferira, contudo, elaborar essa sada fantstica para escapar s 
presses do duque para que se casasse com sua filha, apesar da verdadeira 
razo fugir  compreenso de Priscilla.
Havia sido muito sagaz a justificativa dele de no poder sonhar com a mo 
da filha do duque por ser um pobre soldado sem vintm.
Priscilla sabia perfeitamente que, num regimento caro como o Grenadier 
Guards, todo oficial precisava ter uma certa renda prpria, pois era 
impossvel viver simplesmente de seu soldo.
Como o pai sempre comentara com ela a respeito das despesas dos 
diferentes regimentos, desconfiava de que o conde realmente no teria 
condies de manter uma esposa que no tivesse algum rendimento prprio.
"Se amasse lady Louise, como ela evidentemente o ama, dinheiro certamente 
no teria sido o problema", pensava Priscilla.
106
Na verdade sentira uma ponta de cime ao v-la entrar bonita e segura de 
si, sentindo-se insignificante e pouco atraente.
Evidentemente estava lisonjeada de o conde ter se casado com ela e no 
com lady Louise, mas isso no era o suficiente.
Queria amor, muito amor. Sabia intuitivamente que o amor era essencial 
para que o casamento fosse completo e feliz.
Como poderia continuar vivendo com ele, sabendo que nunca a quisera por 
si mesma, mas apenas como uma tbua de salvao?
Priscilla afastara-se bem da casa e comeava a penetrar agora num pequeno 
bosque.
Jason corria a sua frente, procurando tocas de coelho pelo cho, mas ela 
sequer estava tomando conhecimento dele. Sua mente estava completamente 
voltada para o conde.
Ele lhe parecera muito afetuoso nos ltimos dias, talvez por estar melhor 
de sade. Nos pequenos passeios que faziam, sempre tinham muito a 
conversar, descobrindo vrios pontos em comum.
Receava agora que esse companheirismo no mais lhe interessasse.
Depois da conversa com o duque, ele provavelmente estaria exultando de 
alegria por sentir-se livre. Devia estar se cumprimentando pelo excelente 
resultado de seus planos. Como se sentiria, porm, depois, ao cair em si 
de que havia se casado sem amor?
Priscilla no poderia estar se sentindo mais humilhada e magoada. 
Precisava andar. Andar muito para pr seus pensamentos em ordem.
O bosque ficou para trs e foram dar num campo aberto, no cultivado. 
Viam-se poucos arbustos na regio e uma pequena colina mais adiante.
Um pequeno coelho saiu da toca quase aos ps de Jason e ele se ps a
persegui-lo soltando um latido de euforia.
107
Priscilla pareceu acordar do torpor em que se encontrava e abriu a boca 
para cham-lo.
O co, porm, j havia desaparecido na direo da colina. Levou algum 
tempo para que ela pudesse vencer a distncia que os separava devido s 
condies do terreno. Quando se aproximou do lugar onde o perdera de 
vista, a primeira impresso que teve foi a de que se tratava de uma 
caverna. Subitamente, porm, lembrou que devia tratar-se de uma das minas 
de greda, comuns em muitas partes de Buckinghamshire.
Eram famosas as de West Wycombe, usadas pelo endiabrado sir Francis 
Dashwood, no sculo XVIII, para espantosas orgias. Havia vrias tambm 
perto de Little Stanton, algumas das quais, como aquela, no haviam sido 
muito escavadas.
Assim que chegou perto da entrada, Priscilla ouviu o latido de Jason e o 
chamou. Chamou vrias vezes, sem que ele voltasse para encontr-la. 
Imaginou que devesse ter acuado o coeIhinho a um canto, ou talvez, mais 
esperto, o bichinho tivesse desaparecido em algum buraco e Jason 
estivesse  espera que ele reaparecesse.
- Jason! - insistiu. Ele parou de latir, provavelmente por ouvi-la, e 
Priscilla adentrou a caverna.
- Jason! Jason!
Aprofundou-se um pouco mais e pareceu ouvi-lo vindo ao seu encontro.
No mesmo instante, ouviu-se um estrondo, seguido de vrios outros e 
Priscilla encontrou-se numa total escurido.
No era difcil imaginar o que havia acontecido. A entrada da caverna 
havia desmoronado.
Jason pulou ao seu lado e ela o abraou. Estavam irremediavelmente 
presos.
O conde serviu-se de mais uma taa de champanhe, mas no a bebeu.
Segurando-a, caminhou at a janela para olhar para o jardim.
108
Refletindo a luz do sol, o lago adquirira uma colorao dourada que, 
contrastando com o verde das rvores e das plantas, jtornava o cenrio 
belssimo.
Um calor gostoso percorreu-lhe o corpo. Tudo aquilo era seu. Gostaria de 
compartilhar da emoo daquele momento com Priscilla.
Voltou-se com um sorriso nos lbios, ao pressentir a entrada de algum.
Era o mordomo.
- A condessa no est l em cima, milorde. A governanta acha que ela saiu
para uma caminhada.
O conde franziu a testa.
- Tem certeza? Algum viu para que lado foi?
- Creio que no, milorde, mas vou verificar.
O conde pousou o copo numa mesinha e voltou para a janela, pensativo.
No tinha dvidas de que se Priscilla sara para caminhar era por estar 
preocupada, e precisava pensar.
Isso significava que ficara perturbada com a visita do duque e 
principalmente de lady Louise. Era normal que a pessoa apaixonada 
sentisse cime se julgasse que o objeto de seu amor poderia ser-lhe 
roubado.
Ocorreu ao conde ento que talvez Priscilla houvesse escutado o duque 
tomando-lhe satisfaes.
- Diabos! - blasfemou o conde. - O que tinham de vir fazer aqui?
Esperava, porm, mais cedo ou mais tarde, por aquela visita e era um 
alvio ter-se livrado dela.
O mordomo voltou um bom tempo depois. O conde j estava desassossegado.
- No consegui encontrar milady. Um dos jardineiros me disse que a viu 
subindo em direo ao bosque, com seu co.
- Obrigado - ele agradeceu. - Espero que no demore.
109
Mais uma vez se dirigiu  janela, sem, contudo, ver o reflexo do sol no 
lago, as rvores ou as flores.
Estava sinceramente preocupado com Priscilla. Tinha o pressentimento de 
que ela estava infeliz, provavelmente sofrendo por am-lo.
- Devia ter lhe contado a verdade quando lhe mostrei o anncio - 
censurou-se.
Tinha conscincia de que no adiantava agora atormentar-se. Restava-lhe 
esperar que logo ela estivesse de volta e pudesse esclarecer tudo.
Jason tremia nos braos de Priscilla que, apavorada, temia novos 
desmoronamentos. Fez-se, entretanto, um enorme silncio. Ela parecia 
poder ouvir as batidas do prprio corao.
- No adianta ficarmos esperando socorro, Jason - disse ao co. - Temos
de tentar sair daqui.
Depois da terrvel escurido inicial, podia agora perceber uma fresta de 
luz vinda da entrada. Vagarosamente deu alguns passos em sua direo, 
percebendo que um enorme pedao de rocha bloqueava a entrada. No podia 
chegar at ele porque outras pedras de tamanhos menores impediam-lhe a 
passagem, e Priscilla tinha medo de ao tentar tir-las provocar um novo 
desmoronamento.
Ficou a olhar por algum tempo para a entrada, completamente desarvorada.
- Que vamos fazer, Jason? Que vamos fazer? - perguntou ao co, ao seu 
lado.
Sentou-se, enfim, no cho e seu companheiro logo lambeulhe o rosto,
tentando confort-la.
Em vo. Era assustador pensar que ningum sabia onde estavam.
O pior era que o frio comeava agora a incomod-la, embora estivesse com 
um vestido de mangas compridas. Quando o sol se fosse, o frio seria ainda 
maior.
110
um pnico enorme apossou-se de Priscilla ao pensar que ningum iria 
procur-la ali e que, provavelmente, ela e Jason acabariam morrendo de 
frio e fome, sem que o conde nunca soubesse o que havia acontecido.
O pensamento de que nunca mais iria v-lo assaltou-a, fazendo-a ter 
mpetos de gritar.
De que adiantaria? Ningum iria ouvi-la!
- Precisamos fazer alguma coisa, Jason - disse, desesperada. - E logo!
Ele acomodou-se um pouco mais junto a ela, trmulo. - No podemos
morrer aqui... No podemos, Jason! J pensou, se morrermos, lady Louise
vai insistir... em casar com  o conde.
A perspectiva pareceu-lhe tenebrosa. No tinha dvidas de  que, se o
pior acontecesse, lady Louise e seu pai imediatamente procurariam o conde
e o obrigariam a casar-se. - Preciso salv-lo... preciso salv-lo!
Sentada, fixou os olhos suplicantes no enorme bloco de greda a sua
frente, como se esperasse remov-lo dali num passe de mgica.
Sabia que lhe restava agora apenas a fora de seu pensamento.
Nunca comentara com o conde por receio que ele no entendesse, mas, 
ciente dessa sua estranha capacidade, crivara o irmo de perguntas quando 
este voltara da ndia, inclusive quanto a determinados fenmenos para os 
quais no havia explicao.
- Muitos fakirs usam o hipnotismo - dissera-lhe Richard
- mas tambm tm um mtodo de comunicao mais rpido e eficiente que 
qualquer mtodo imaginado no Ocidente.
- Que mtodo  esse? - perguntara-lhe ansiosa.
-  meio difcil explicar - o irmo respondera, receando que ela no 
fosse entender. - Podem projetar seus pensamentos a uma longa distncia. 
Foi o caso de um jovem oficial hindu
111
em meu acampamento que veio um dia me pedir licena de sada porque o pai
havia morrido. Como eu sabia que o pai dele morava h mais de cinco
quilmetros de distncia, perguntei-lhe como ficara sabendo da notcia da 
morte. Morreu ontem  noite, capito Sahib, disse-me ele. Ontem  noite!, 
ex clamei eu.  impossvel. No recebemos ningum desde ento.
- O que voc fez? - perguntara-lhe Priscilla.
- Naturalmente, recusei-me a deix-lo ir, achando o pretexto muito falso. 
S duas semanas mais tarde  que fiquei sabendo que o pai dele realmente 
havia morrido no horrio exato dito por ele.
Agora Priscilla sabia que aquele fenmeno era chamado de telepatia e, a 
menos que procurasse mandar uma mensagem teleptica ao conde, acabaria 
morrendo com Jason naquela caverna fria.
Fechou os olhos e concentrou-se no amor que tinha por ele e na vontade 
firme de que ficasse sabendo do que estava acontecendo com ela.
Uma hora mais tarde, o conde caminhava de um lado para outro no salo.
J havia ido at o hall trs vezes para perguntar aos empregados se a
condessa havia voltado. Nenhum sinal dela.
Procurava tranquilizar-se, dizendo a si mesmo que afinal no fazia tanto 
tempo assim que Priscilla estava fora. Mas alguma coisa lhe dizia que 
talvez estivesse em perigo. Teve, inclusive, a sensao de que o chamava.
"Estou imaginando coisas", pensou. "No pode estar correndo risco algum. 
"
O pressentimento depois de algum tempo foi mais forte que ele, fazendo-o 
sentir uma necessidade imperiosa de agir.
Parecia ver o rosto de Priscilla levantado para ele, com os olhos 
suplicantes.
- Diabos, sei que ela est em perigo! - ele exclamou.
112
Ao toque da sineta, um empregado veio imediatamente. Pouco depois, o 
conde estava montado num cavalo, seguido de trs empregados.
- Boyd e eu vamos em direo ao bosque - disse ele. Um de vocs v em 
sentido contrrio, no caso de milady estar voltando pelo atalho, e outro 
percorra o pomar e imediaes.
Os rapazes entenderam de pronto as instrues e imediatamente tomaram o 
rumo indicado.
Seguido por Boyd, o conde cavalgou entre os lilases coloridos que 
serpenteavam o caminho at o bosque, possudo de uma estranha opresso. 
Intensificava-se dentro dele a impresso de que Priscilla chamava por ele 
e que, se demorasse em atend-la, poderia perd-la.
No havia qualquer lgica nessa impresso, mas ele procurou acelerar o 
passo do cavalo, olhando o tempo todo entre as rvores, na expectativa
de ver uma ponta de vestido branco entre elas.
Alcanaram, finalmente, a outra extremidade do bosque, sem que 
descobrissem o menor sinal da moa. Apenas uma revoada de pombos os 
saudou.
Crescia dentro do conde a sensao de medo de no encontrar Priscilla. 
Para dominar esse sentimento, parou o cavalo e perguntou ao criado:
- Acha que milady viria at aqui, Boyd?
-  realmente bem longe, milorde. Mas, se queria dar uma longa caminhada, 
pode at ter ultrapassado a mina de greda  nossa frente.
- Vamos dar uma verificada por l - props o conde.  Cavalgaram ento
at o topo da colina, de onde se avistavamoutras pequenas elevaes de
terra que se estendiam at um lindo vale, onde a vista de um riacho
transparente confundiase com a linha do horizonte.
Era um espetculo belssimo da natureza, mas o conde s
113
tinha um pensamento: encontrar Priscilla antes que escurecesse de vez.
- O que vamos fazer, hein, Boyd? Acha que os outros j a encontraram
- Receio que no, milorde. Dei a cada um uma corneta que deve ser tocada 
no caso de a encontrarem.
- Foi muito previdente, Boyd - observou o conde, permanecendo atento para 
ouvir o som do instrumento, vindo de um ou do outro lado do bosque.
Quando levantava as rdeas para pr o cavalo novamente em movimento, Boyd 
segurou-lhe a mo de sbito.
- Acho que ouo alguma coisa, milorde.
O conde manteve-se em silncio, depois disse:
- No ouo nada.
No dando ateno a essas palavras, o empregado permaneceu numa atitude 
de total concentrao, depois exclamou:
- Ouvi novamente, milorde!  o latido de um cachorro! Talvez seja o de 
mlady!
Priscilla desencostou-se da parede e endireitou o corpo. Tremia de frio 
agora. A umidade da caverna parecia ter aumentado. Abraou Jason mais 
fortemente. Sabia que ele estava assustado com a escurido e talvez ela 
prpria estivesse transmitindo a ele todo o medo que estava sentindo.
Seu pensamento continuava completamente concentrado no conde, pedindo-lhe 
com fervor para que fosse retir-la dali. Pressentia que ele tambm 
estava pensando nela e isso a confortava.
- Eu o amo - disse a si mesma. - Nada tenho para oferecer-lhe a no ser 
meu amor. Mas no  o amor o que h de mais forte neste mundo?
Em seu devaneio, Priscilla viu o conde  entrada da mina. Voando para
ele, atirou-se em seus braos.
114
O latido inquieto de Jason acordou-a de seu sonho. Conhecia bem aquele 
latido. No era de alegria, nem de excitao. Era de aviso da aproximao 
de algum,
- O que foi, Jason? - perguntou, eufrica. - O que est ouvindo?
Priscilla no podia v-lo, mas percebia que ele estava atento. Ao senti-
lo tentar afastar-se dela, invadiu-a uma sensao de medo de que ele 
sumisse na escurido, deixando-a sozinha.
Um novo latido mais agudo e sonoro fez-se ouvir e Jason foi arranhar a 
barreira que os impedia de sair.
- Ah, Jason, ser... Ser que nos encontraram? Queria gritar por socorro, 
mas sua voz no saa e as lgrimas
lavaram-lhe o rosto e a alma.
115

CAPITULO VII

Priscilla levantou as mos em protesto.
- No, no... no consigo tomar nem mais uma colher.
-  para tirar a friagem - retorquiu a bab, com firmeza.
- S Deus sabe como chegou gelada.
- Congelada eu ficaria se tivesse de passar a noite l - disse Priscilla, 
esboando um sorriso.
A bab teve um ligeiro estremecimento de pavor, o que fez Priscilla 
compreender o quanto a boa mulher devia ter sofrido com sua demora. Ela 
tambm j estava quase em desespero quando, como por milagre, ouvira a 
voz do conde:
- Voc est a, Priscilla? - gritara ele, sobrepondo sua voz ao latido do 
co.
- Estou... estou aqui, sim! - balbuciou ela, a princpio, confirmando em 
voz bem alta depois, temendo que ele no a ouvisse.
- Est machucada?
A preocupao que havia na voz dele foi o som mais lindo que jamais 
ouvira. Ele se importava com ela! Estava preocupado que pudesse ter 
ficado soterrada com o desmoronamento!
- No... estou bem - procurara tranquiliz-lo.
- J vamos tir-la da.
Priscilla ouvia que o conde falava com algum, porm pouco lhe importava 
quem fosse. Sentia um alvio inexplicvel por suas preces terem sido 
atendidas. Jason e ela no mais morreriam de frio e fome.
Estranhara ouvir o som de uma corneta, mas depois imaginara que devia 
estar relacionada ao fato de ter sido localizada.
A voz do conde soava abafada, mas percebia que estavam
116
discutindo sobre a melhor maneira de remover a barreira que bloqueava a
entrada da mina.
Acabara perdendo a noo do tempo. Os minutos ou horas que se seguiram
pareceram-lhe interminveis. Jason latia impaciente.
Mais vozes masculinas juntaram-se  do conde e seguiu-se um longo e
cuidadoso trabalho de remoo para evitar novos desmoronamentos.
Era possvel perceber que estavam calando com troncos de rvores a
entrada da mina,  medida que iam retirando as pedras.
"Ele  to inteligente! "
Uma onda de amor invadira-lhe o peito, sentindo crescer em seu ntimo a 
convico de que havia valido a pena passar por todo susto e medo para
descobrir que podia se comunicar mentalmente com ele.
" porque o amo", pensara, acreditando estar confirmando assim sua teoria
de que o amor era a maior fora do mundo.
Num estado de quase exaltao ou delrio, comearam a se projetar em sua 
mente imagens desconexas do curto espao de tempo desde que se 
conheceram: a aparncia solene dele no dia de seu casamento; ainda 
desacordado na cama, em Little Stanton; chegando fraco a Rock; cado ao 
cho, como o encontrara; risonho propondo-se a lhe mostrar a casa; e... 
surpreso ao ser informado da visita do duque.
Realmente no havia razo para pensar que alguma coisa houvesse mudado 
entre eles. O conde provavelmente fora procur-la apenas por um 
sentimento de solidariedade ou gratido por t-lo ajudado a evitar o
casamento com lady Louise.
"Como pude sonhar que ele quisesse se casar com uma camponesinha sem
importncia como eu, por amor? "
Por mais que pensasse, no conseguia entender a razo de ele no ter
querido o casamento com uma moa bela e sofisticada como a filha do
duque.
Sabia apenas que existia mais que uma barreira fsica entre o conde e
ela, e no via como poderia transp-la.
117
Subitamente um facho de luz como que a despertara de um pesadelo. J 
havia sido cavado um pequeno buraco, pelo qual podia ver que trs homens 
trabalhavam sob a orientao do conde. A expresso dele era ansiosa, 
observando o teto que, aparentemente, mantinha-se firme.
Abraada a Jason, manteve-se calada, com a respirao praticamente 
suspensa.
- Voc est bem, Priscilla?
- Estou, sim - dissera, trmula.
- Acha que d para Jason passar pelo buraco que cavamos?
- D, sim. Est difcil mant-lo preso, ele est lutando para sair.
- Solte-o ento!
No foi necessrio dar instruo alguma ao co. Assim que o soltou, ele 
imediatamente correu em direo  luz e ps-se a latir excitado ao ver o 
conde.
O trabalho de remoo continuara por algum tempo.
- Creio que j posso passar por a agora.
- Tem certeza? - perguntara-lhe o conde. - Precisa tomar todo cuidado 
para no esbarrar com fora em nenhum dos lados, seno pode haver novo 
desmoronamento - ele a prevenira, objetivo.
- Sei disso. Vou tomar cuidado.
Assim que seus ombros passaram, o conde puxara-a com toda delicadeza, 
colocando-a de p e abraando-a para ampar-la.
Priscilla mal podia acreditar que estivesse livre. Enterrou a cabea no 
ombro do conde e chorou.
Os braos dele eram fortes e reconfortantes. Sentia-se protegida e segura 
neles.
- No chore, Priscilla, o perigo passou. Vou lev-la para casa agora.
- Que bom que voc veio... que atendeu ao meu chamado!
- Vamos, seu vestido est mido e voc est gelada.
Ele afastara os braos dos ombros de Priscilla e comeara a tirar o 
casaco.
118
- Por favor, no faa isso - ela protestara. Os protestos de Priscilla
foram em vo.
O conde no s a agasalhara com seu prprio casaco, como tambm pedira o 
de seus empregados para forrar a parte da frente da sela de seu cavalo.
Depois de mont-lo, pedira aos empregados que a levantassem e ele mesmo 
reconduzira-a a casa, segurando-a em seu colo com uma das mos, e as 
rdeas com a outra.
Dera, em seguida, instrues a um dos rapazes que seguisse na frente para 
avisar a bab que estavam chegando, enquanto os outros dois foram atrs, 
seguidos de Jason, muito excitado.
Durante todo o trajeto de volta, Priscilla tinha apenas uma prece nos 
lbios, agradecendo a Deus pelo conde t-la salvo e desejando faz-lo 
feliz, em retribuio.
No pudera, entretanto, deixar de sentir um enorme prazer de se achar to 
junto dele, pouco se importando se demorassem para chegar.
Na verdade, levaram dez minutos e foram recebidos por uma bab impaciente 
que no sabia se a acarinhava ou repreendia.
Havia um banho quente  espera dela e a cama j estava pronta para que se 
deitasse, alm do que a bab preparara uma sopa de carne e legumes que 
insistia agora para que tomasse, como se fosse uma criana.
- Por favor, bab, no quero mais... - suplicou-lhe.
- Isto  s para esquentar. Logo vai ter de jantar. Precisa se alimentar 
bem, depois de uma experincia dessas.
- Quero jantar com milorde.
- Ele est jantando em seu quarto. O sr. Bates tambm preparou um banho 
quente para ele e vai faz-lo deitar-se logo, pois h muito no montava 
um cavalo.
- Milorde vai detestar ser tratado como um invlido novamente.
- Ele ainda no deveria ter se arriscado, por isso trate de ficar feliz 
se seu marido no tiver uma recada e voc uma
pneumonia.
119
- Estou quente agora e, em vez de ficar reclamando, devia se alegrar de 
eu no passar a noite l.
A bab soltou uma exclamao de horror. Tudo, porm, se fez segundo sua 
vontade.
Apesar de desejar estar com o conde, Priscilla jantou sozinha, pensando 
todo o tempo nele.
Quando terminou e a bab arrumava a bandeja para levar embora, ela no se 
conteve:
- Ser que mlorde vir me ver?
- Creio que sim - a governanta respondeu. - Vou descer agora e jantar
tambm. Precisa de mais alguma coisa?
- No, obrigada.
A bab olhou ao seu redor para ver se no havia esquecido nada, mas tudo 
estava em seu lugar. As cortinas haviam sido puxadas e as velas estavam 
acesas na penteadeira, prxima da cama.
Embora no pavimento inferior fossem usados lampies a leo, os quartos 
ainda eram iluminados por velas, o que emprestava uma atmosfera romntica 
ao ambiente.
Priscilla e o conde j haviam discutido sobre a possibilidade de 
providenciar iluminao a gs.
-  uma pena mudar o que quer que seja - argumentara Priscilla.
- Se desejamos acompanhar o progresso - respondera-lhe o conde sorrindo - 
temos de comear pela modernizao da casa.
- Mas  to linda assim.
- No temos pressa. Vamos ouvir vrias opinies antes. Priscilla achava o 
seu quarto perfeito. Ficou olhando por um
momento para o teto pintado, no qual se destacavam as figuras de dois 
cupidos dourados.
Seu olhar deteve-se ento na porta de comunicao para o quarto do conde, 
que nunca havia sido aberta.
Um sexto sentido lhe dizia que, depois de tudo o que havia acontecido, o 
conde entraria por ela em seu quarto, naquela noite.
120
Ajeitava-se melhor nos travesseiros quando, para seu espanto, viu a
maaneta ser girada. Seu corao bateu descompassadamente. A porta se
abriu e o conde entrou, vestindo um robe de veludo azul, no qual estava
mais atraente do que nunca. To excitada estava com sua chegada, que o
rosto dele parecia danar em frente a seus olhos, no conseguindo
focaliK-lo claramente.
Ele fechou a porta de comunicao com todo o cuidado atrs Me si e 
caminhou para a cama.
Priscilla imediatamente sentou-se na cama, entrelaando as mos para que
ele no percebesse como estavam trmulas. No podia imaginar como estava
encantadora, com os cabelos loiros cados sobre os ombros, refletindo
ouro  luz das velas, o rosto meio afogueado e os olhos mais luminosos do
que nunca.
Ele ficou a contempl-la, sorrindo por alguns minutos, entendendo que 
aquela luz que vinha dela era irradiada pelo corao.
Todas as coisas que Priscilla ansiara por perguntar-lhe fugiam-lhe da 
cabea agora.
- Tive tanto medo que... voc no escutasse... meu chamado!
Ele no respondeu de imediato, depois disse:
- Oua, Priscilla, ns dois temos muito a conversar, mas creio que devo 
obedecer ao mdico e descansar.
Por um momento, Priscilla ficou confusa, no entendendo o que ele queria 
dizer. Depois caiu em si:
 - Mas claro... voc no devia ter andado a cavalo... Sei fdisso.
- Felizmente cheguei bem, mas acho que  mais prudente no correr mais
riscos, no ?
 Ele deu a volta na cama, tirou o robe, puxou as cobertas e deitou-se ao
lado dela. Priscilla ficou sem entender mais nada por um momento.
121
Sentiu o rosto incendiar-se e o corao quase saltar-lhe do peito.
Recostando-se confortavelmente nos travesseiros, o conde disse tranquilo:
- Assim est bem melhor! Pelo menos Bates e a bab nada tero a nos
repreender.
Priscilla deu uma risadinha nervosa.
- Ela est convicta de que eu vou morrer... de pneumonia e que voc vai
ficar defeituoso por estar abusando muito.
- Estou cansado do falatrio deles. Vamos falar de ns, Priscilla.
Priscilla ficou com a respirao suspensa. Sabia que poderia ouvir
declaraes decisivas para sua vida, positivas ou negativs.
- Quero lhe dizer, querida - continuou o conde -, que se
no a tivesse encontrado estaria desesperado agora, sem saber
o que havia acontecido.
- Voc... ficou mesmo... preocupado? - sussurrou ela. Ela no tinha de
forma alguma inteno de fazer a pergunta, que lhe escapou dos lbios.
- Respondo num minuto - replicou o conde. - Antes quero que me diga a
razo de ter sado para uma caminhada quando tnhamos planejado
explorar a casa juntos.
Priscilla desviou os olhos dele, voltando o rosto para frente.
O conde sentiu uma onda de enternecimento diante do perfil
encantador  luz das velas, tendo mpetos de beijar-lhe o nariz
pequenino e os lbios macios.
Como ela no encontrasse palavras para responder, ele se adiantou:
- Imagino que tenha ouvido o que o duque me disse.
- No tinha inteno de... ouvir atrs da porta - ela gaguejou. - Foi 
mero acaso.
- Voc ouviu o que eu mesmo deveria ter lhe contado, e o que pretendo 
contar-lhe agora, mesmo que com atraso.
- No  preciso - Priscilla imediatamente replicou. - S estava tentando 
entender o porqu de voc... ter se casado
122
comigo... to rapidamente, e agora sei... que foi porque no desejava... 
casar-se com lady Louise.
As palavras saam-lhe aos borbotes, como se no pudessem mais ficar 
sufocadas em sua garganta. Antes que o conde pudesse comentar qualquer 
coisa, ela prosseguiu:
- Ainda no entendo por que voc no a quis por esposa. Ela ... to 
linda e... vive no mesmo tipo de mundo que o seu... e seria certamente 
o... tipo de esposa que voc deveria ter.
O conde pegou a mo de Priscilla, sentindo-a trmula. Apertou-a na sua e 
disse:
- Voc  que  "o tipo certo de esposa" para mim, a mulher a quem sonhei 
dar o meu nome e passar o resto da vida ao meu
lado.
- Ser... verdade? - Priscilla enrijeceu o corpo.
- Juro que . Apesar de ter conhecido muitas mulheres charmosas, que me 
devotaram muita afeio, nunca pensei em pedir nenhuma em casamento.
- Mas... voc se casou comigo... - disse Priscilla, baixinho - apenas 
para no ter de... se casar com lady Louise.
- Creio que, mesmo se no houvesse nenhuma lady Louise em minha vida, o 
destino faria com que nos encontrssemos. Eu devia ter sabido que voc 
era o meu Velo Dourado, pelo qual tenho estado procurando, apesar de ter 
tomado conscincia disso somente hoje.
- Est mesmo sendo sincero?
A expresso eloquente dos olhos de Priscilla falava mais alto do que suas 
palavras.
O conde hesitou por um momento, buscando as palavras certas a dizer para 
convenc-la.
-  fundamental para nossa vida de casados que sejamos completamente 
sinceros um com o outro, por isso preciso lhe dizer que, logo que a vi, 
achei que voc era uma das pessoas
mais atraentes que j tinha conhecido. Pensei, porm, que  aquilo que
voc buscava, e que voc me disse ser o Velo dourado que todos buscam,
estivesse alm da minha capacidade.
123
Priscilla no disse nada, mas apertou levemente a mo dele.
- Posteriormente,  medida que conversvamos sobre assuntos que jamais 
sonhei discutir com uma mulher e que a convivncia em Manor me mostrou
como voc era doce e pura, fui me convencendo de que voc era exatamente
a esposa que eu queria.
A voz do conde tornou-se mais spera:
- Duvido que ela tivesse se interessado por mim com a finalidade de
casamento se eu continuasse um simples oficial dos Grenadiers.
Priscilla o ouvia atenta.
- Tremo de horror s em pensar em ter uma mulher que estivesse 
interessada em mim apenas pelas minhas propriedades e posio social. Foi 
o destino que mandou voc para me salvar quase na hora fatal!
- Fico contente de ser essa herona, s que gostaria que voc tivesse me 
contado antes sobre o apuro em que estava.
- Pretendia contar-lhe mais cedo ou mais tarde, mas no achava que fosse 
to importante, alm do que no queria estragar sua felicidade, nem 
destruir o amor que voc comeava a sentir por mim.
Ele falava com doura e percebeu que deixou Priscilla embaraada, vendo-a 
corar e desviar o rosto do dele.
- Mesmo depois de casados - comentou ele -, sabia que, por instigao da 
filha, o duque poderia tornar as coisas difceis e desagradveis para mim 
e at mesmo para voc.
- Foi por isso que fingiu termos nos casado antes de herdar o ttulo - 
concluiu Priscilla.
- Exatamente - concordou o conde. - Agora que o duque aceitou a situao, 
no h mais nada que possa fazer para ferir minha reputao. Podemos, 
pois, comear nossa vida de casados, sem que haja qualquer surpresa 
desagradvel.
Era difcil explicar a Priscilla como as coisas haviam mudado de figura a 
partir do momento em que o duque e lady Louise tinham ido embora. Era 
como se tivessem sado de sua vida para sempre.
124
Podia agora, finalmente, pensar em comear um novo captulo de uma nova 
vida. Sabia, ao apertar a mozinha de Priscilla na sua, que talvez viesse 
a ser o captulo mais excitante de todos.
com os olhos brilhantes de antecipao pelos bons momentos que logo se 
seguiriam, perguntou a ela, contendo toda sua expectativa:
- Agora me conte como voc foi se meter naquela mina e, principalmente, 
como conseguiu me mandar a mensagem de que estava em perigo.
- Voc sabia mesmo que eu estava em perigo?
- Senti em meu corao.
Vibrando ao saber que podia estabelecer uma comunicao mental com o 
conde, quando fosse necessrio, Priscilla contoulhe em todos os detalhes 
sua priso dentro da mina.
- Tive tanto medo... tanto medo... - concluiu ela - de que voc no nos 
encontrasse e que eu... morresse de frio... sem nunca mais v-lo.
O conde percebeu que ela no estava longe das lgrimas. Achegou-se mais a 
ela e abraou-a pela cintura, sentindo-a estremecer ao seu contato.
Priscilla encostou a cabea no ombro do conde e disse baixinho:
- Rezei tanto para que voc fosse... me salvar... O conde a puxou ainda 
mais para junto de si.
- Eu ouvi - disse ele. - Podia senti-la ao meu lado, me pedindo alguma 
coisa, me contando alguma coisa e compreendi que estava em perigo.
Priscilla deu um suspiro de felicidade, no podendo deixar de se lembrar 
de Richard e de suas histrias a respeito dos poderes mentais dos hindus.
- Eu tinha certeza de que voc receberia a minha mensagem!
- Por acaso perguntou a si mesma a razo dessa certeza?
- perguntou o conde. - E que talvez outro homem no a recebesse?
125
Prisclla levantou o rosto para ele e olhou-o intrigada.
O conde manteve o rosto dela levantado, pegando-o pelo queixo, para que 
ela no pudesse desviar seus olhos dos dele.
- Sua mensagem foi enviada com amor - disse ele -, e eu a recebi com 
amor. Por isso funcionou.
Priscilla estava perplexa, perguntando-se se no estaria sonhando. 
Percebendo sua confuso, o conde sussurrou-lhe ao ouvido:
- Eu a amo, querida! Fui um tolo de no ter lhe dito isso antes, mas eu 
mesmo no havia percebido o quanto voc significava para mim, o quanto a 
amava, at correr o risco de perd-la,
- Voc me ama! - Era radiante o olhar de Priscilla.
- Amo-a na exata medida em que voc desejava ser amada
- disse ele. - Encontrei meu Velo Dourado, Priscilla, e compreendi todas 
as coisas que voc tentava me dizer, mas que eu no entendia porque era 
muito estpido e cego! Agora, nada mais tem importncia.
Ele a apertou em seus braos e, quando seus lbios se encontraram, pde 
finalmente provar que os de Priscilla eram to macios, doces e inocentes, 
como havia imaginado. Eram exatamente como as ptalas de um lrio.
Percebia agora que a dificuldade que tivera para reconhecer que Priscilla
era a mulher de sua vida devia-se aos sentimentos novos e desconhecidos
que ela despertara nele.
Sentia por Priscilla emoes comparveis s despertadas pela audio de 
msicas celestiais ou pela viso do paraso e, por saber que despertava 
nela xtase semelhante, tinha conscincia de ser um homem abenoado por 
encontrar a perfeio, como poucos.
Os lbios do conde tornaram-se mais possessivos e exigentes e Priscilla 
correspondia com o mesmo ardor, de corpo e alma. Ele afastou a cabea por 
um momento para olh-la e seu rosto no poderia irradiar maior beleza.
O conde prometeu a si mesmo naquele instante que a amaria e protegeria 
contra qualquer mal para o resto de suas vidas.
126
- Eu a amo, Priscilla! Mas creio que voc ainda no me
disse o que sente por mim.
 - Eu? Eu o amo... eu o amo! - ela quase gritou. - Ameio desde o primeiro
 momento que o vi... e sempre soube que voc era o homem dos meus sonhos.
 - Querida, era exatamente isso que eu queria ouvir - falou
o conde sorrindo -, e eu a amarei para sempre e por todas as
milhares de vidas que teremos depois desta. Priscilla deu um leve gemido 
de prazer.
- Achei que fui meio  tola de no prever que a mina pudesse ser
perigosa - admitiu Priscilla. - Mas agora fico de certa forma at
contente com tudo o que aconteceu porque ficamos sabendo que podemos nos
comunicar mesmo estando separados e que nosso amor  mais... forte do
que... o tempo e o espao.
-  verdade - concordou o conde. - Agora, porque acredito, meu bem  
precioso, que nosso amor vem de Deus, vamos dedicar nossa felicidade e 
energia em ajudar outras pessoas, coisa, alis, que foi voc que me fez 
ver como  importante.
- Como voc  maravilhoso! Estou to feliz... to feliz... que vou passar
o resto de minha vida agradecendo a Deus por t-lo como mari...
A ltima palavra perdeu-se num beijo.
Havia um fogo estranho agora nos beijos do conde e Priscilla podia sentir 
o corao dele batendo descompassado junto ao seu. Sabia, por instinto, 
que ele estava excitado.
Como era amada na medida em que desejava, ansiava agora por entregar a 
ele no s seu corao, mas seu corpo tambm, para no mais existir como 
uma s pessoa, mas tornar-se verdadeiramente parte do homem que amava. 
Eram maravilhosas as sensaes que ele despertava nela e desejava que a 
beleza pudesse ser total.
- Amo-a tanto - sussurrou o conde -, que tenho medo de assust-la, por 
isso, querida, estou procurando ser o mais gentil possvel.
- No estou... assustada - Priscilla disse, timidamente.
127
O conde a beijou novamente e sentiu como se ambos estivessem sendo 
levados para o cu.
O amor que Priscilla o fazia conhecer transportava-o a tal xtase e era,
ao mesmo tempo, to puro e sagrado que tinha vontade de ajoelhar-se aos
ps dela para agradecer-lhe por t-lo feito encontrar seu Velo Dourado
que tantos homens procuram e to poucos acham.
Ao senti-la estremecer em seus braos, ele compreendeu que ela no era
apenas divina, mas muito humana, e que inici-la na arte do amor seria
sua experincia mais excitante e fantstica.
- Amo-a, querida... amo-a muito!
E ento deu-se a unio de duas pessoas cujo amor no precisava mais de
palavras, porque seus ideais, suas mentes, seus coraes e seus corpos os
tornavam um para todo o sempre.
128

                            *****

                           FIM
